Zero a Zero

Segunda Crônica por Cid Brasil

Chamava-se Tubarão Futebol Clube. O glorioso elenco era formado por Gildo, Leandro, Pepe, Sunga e eu, todos atletas e fundadores. Cada sala tinha dois times e disputávamos segunda, quarta e sexta a Liga do colégio (terça e quinta era dia das meninas). Quem cuidava da organização daquela bagunça era um garoto chamado Raniery, que gostava tanto de números, regras e discussões que hoje não me espanta ser dono de um escritório de contabilidade.

Esse time tem um lugar especial na minha memória porque começou do jeito que deve começar todas as relações duradouras: com uma briga. Um entrevero desses dignos da Semana de Arte Moderna, esse evento tão importante que a professora Quitéria tentava nos ensinar, mas tão pequeno se comparado à nossa Liga de Futebol de Salão.

No começo, parecíamos ter entrado em consenso: o símbolo do Tubarão F.C tinha de ser simples e tricolor, a começar pelo fato de que ninguém sabia desenhar um tubarão. O nome fui eu quem sugeri e todos gostaram de cara, pois queríamos representar bravura e impetuosidade do animal, porém o mais próximo que estávamos de ser um predador era o fato de estarmos no topo da cadeia alimentar (e de dívidas) da cantina. Preto, cinza e branco seriam as cores iniciais já que a maioria torcia para o Corinthians. As listras seriam horizontais porque todos achávamos mais bonito dessa forma – agora me vem a cabeça que uma barbatana entre as listras teria servido e dado um toque criativo a coisa toda, mas agora já é tarde para essa ideia e as inscrições para o campeonato eram urgentes. Estava tudo decidido até o Sunga aparecer com uma “proposta”.

A briga começou pela defesa quase Hitlerista, ou Andradiana – para ficarmos na semana de tretas modernas – do Sunga em querer colocar a cor roxa em nossa bandeira alegando que 1) era sua cor preferida; 2) ele era o mais velho não só do time como de toda sala e 3) era goleiro sem saber agarrar. Resumindo: tinha de haver compensação em algo. Possivelmente ficou com essa ideia fixa por já intuir o sofrimento que viria a passar. Hoje ele trabalha como despachante no Detran.

Muito sangue rolou… Do meu nariz, pois eu sofria de rinite alérgica e em momentos de estresse coçava muito as ventas e um vaso estourou no meio da discussão. Quando a Professora viu aquela exaltação e minha camisa ensanguentada nos mandou para a diretoria. Chegando lá mais discussões até a diretora se dar conta do motivo e intervir, mandando logo acrescentar o roxo na porcaria da bandeira senão ficaríamos fora do campeonato. Em honra do bem comum acatamos a cor funesta.

Quando a bola finalmente rolou nosso desempenho foi sofrível. O Sunga mais parecia um calção com sua ineficácia em segurar as bolas dos inimigos; Leandro, que hoje trabalha com logística e entregas, era uma completa avenida na defesa e o Pepe já era um politico sem saber, com sua dificuldade em se posicionar dentro da quadra, confundindo-se com as próprias pernas e distribuindo sopapos nos outros escondido do juiz. Como pessoa responsável por fazer os gols eu pelo menos tentava honrar o clube da melhor forma, ao deixar o roxo da tão falada bandeira nas canelas adversárias. Não vencemos uma partida, sequer empatamos um jogo. Ficamos em último lugar na competição do ano 2000. Um ano feito peixinhos de aquário presos nas tabelas e triangulações dos times mais habilidosos.

O sofrimento também junta as pessoas e acho que é devido a esse inofensivo time que até hoje nos queremos muito bem. Essa semana chegou-me um imperioso e-mail do querido (e pouco confiável) Sunga, dizendo que estava com vontade de reencontrar todos para uma pizza.

O e-mail vinha ilustrado com uma bandeira do glorioso Tubarão F.C. A imagem despertou em Pepe uma lembrança muito além de nosso frágil escrete. Por um desses acasos da vida a muitos anos contou ter visto nossa bandeira (ou aquelas cores pelo menos) nas mãos de uns caras numa passeata LGBT em São Paulo. Curioso, o Pepe procurou saber o que representavam aquelas cores, foi atrás dos caras imaginando que ali também estivessem outro grupo de amigos ruins de bola unidos pela causa LGBT, mas descobriu, usando um jargão futebolístico, que a falta de tesão do nosso time ia muito mais além do que a esterilidade do nosso ataque.

Preto, cinza, branco e roxo formam a bandeira do movimento dos assexuados.

Então não é a toa, disse Gildo, que nenhum de nós cinco tem filhos até hoje.

Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce.

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