Voz de Ouro

voz de ouro

O que eu precisava tanto contar a vocês? Pois bem, todos aqui sabem que não sou em nada parecido com o tipo de pessoa que frequenta o clube Getúlio, e que se vou lá quase todo dia é só para ver aqueles ricos pomposos perderem a calma quando lhes tiro tudo o que têm no jogo de pôquer. Apesar disso, as vezes também passam por lá alguns tipos um bocado caricatos e, preciso confessar, é isso o que mais me atrai àquele lugar.

Faz mais ou menos um mês – era uma terça, acredito – estava num dia particularmente ruim. As cartas pareciam ter decidido dar uma chance àqueles pobres coitados e se recusavam a aparecer para mim. Ou melhor, até apareciam, mas então era pior: se eu fazia um jogo, alguém sempre tinha um melhor.

Se não sentia muita raiva era só porque havia na mesa um certo senhor deveras interessante. Era um homem de meia idade, daqueles que costuma-se chamar de “novos ricos”, ou seja, alguém com dinheiro o suficiente para frequentar nossos círculos, mas obviamente sem a bagagem cultural esperada de alguém de nosso nível. Pronunciava os nomes das combinações com um sotaque cômico, uma sátira involuntária do sotaque inglês. Se mostrava as cinco cartas com o mesmo naipe, um flush, dizia ter um fléshe. A sequência era para ele um stráite, e quem dava as cartas o dílar. Era bom jogador, acho que estava ganhando de todos, o que não incomodava ninguém: pagávamos pelo espetáculo.

Agora, nessa nossa cidade provinciana não dá para falar que um “novo rico” é algum tipo original. Quem sabe no clube Getúlio isso seja novidade, mas qualquer um que vá no Chateau Paris ou na Trattoria DiVino vai notar vários clientes incapazes de manejar os talheres, e ainda assim nenhum deles fica para lavar os pratos ou faz escândalo na hora de pagar a conta. Convenhamos, nossa classe está em extinção desde a revolução francesa, meus amigos. Mais dia menos dia o mundo será povoado inteiramente por trogloditas – alguns com mais, outros com menos dinheiro, mas todos incapazes de realmente entender os verdadeiros prazeres de uma refeição refinada ou da ópera de Puccini.

Mas estou desviando do assunto. O que me chamou atenção naquele homem não foi tanto seus maneirismos cômicos – só por isso comecei a falar do triste declínio da nobreza. O que me interessou mesmo foi a voz. Juro: qualquer um que escute aquele homem falando reconhecerá sua voz imediatamente, mas pago a conta de quem conseguir decifrar onde a escutou. A noite toda prestei atenção naquele homem, pode ser que seja só por isso que perdi dinheiro: passei o tempo todo matutando. Ele não podia ser famoso, era feio demais para isso. Seria radialista? Mas qual radialista ganharia o suficiente para frequentar o Getúlio?

Enfim, naquela noite fiquei a ver navios. Tive que me despedir antes que o jogo acabasse. Durante algumas semanas toda vez que ia ao clube percorria os olhos pelas mesas, esperançoso, mas nem sinal do nosso locutor. Acabou aparecendo de novo quase um mês depois, precisamente dois dias atrás. Mencionei nosso jogo anterior e perguntei sobre a ausência, mas ele respondeu vagamente, dizendo que viajara. Dessa vez durou pouco na mesa, em muito por minha causa. Aproveitei a deixa para sair também (o que foi um tanto difícil, aquela noite estava ótima para mim), e acompanhá-lo até o balcão do bar. Ofereci uma bebida, “para compensar o azar”. Ele deu de ombros, “um dia da caça, outro do caçador”, mas aceitou. Pediu cerveja. Conversamos algumas ameninades, que, para mim, não passavam de um preâmbulo. Quando indaguei sobre a voz, falou algo nessas linhas:

“Eu nasci em Sinope, lá no interior do Mato Grosso. A gente não era fazendeiro, meu pai era comerciante na cidade e minha mãe fazia serviços pequenos para as esposas mais ricas, normalmente alguma costura. Passei minha infância toda por lá, na época era uma cidadezinha, hoje ouvi falar que cresceu de um jeito que só vendo.

Estudar eu não estudei muito não, fiz até o ginásio. Primeiro quis jogar bola, mas em Sinope ficava difícil. Fui ficando velho, casei, fazia bicos, ajudava o pai. Depois conheci um homem que me ofereceu para trabalhar na rádio como narrador de futebol.

É que tenho voz boa pra isso. Não conheço ninguém que fala mais rápido do que eu. Eu assim no dia a dia falo normal, mas se precisar consigo juntar tudo as palavras, como se fosse uma coisa só. Não sei bem como aprendi isso, quando lembro de mim eu já sabia.

Mas  mesmo assim não deu muito certo essa história de narrador. Falar rápido na verdade é a parte fácil. O difícil é dar a emoção, aquela coisa que faz a gente apertar os dentes quando escuta. Se até eu tivesse narrando um jogo do Corinthians, do Flamengo, mas aqueles jogos de várzea, meu Deus, que tristeza…

Depois disso trabalhei bastante tempo em leilão. Lá pro interior tem muito leilão de bicho, de cavalo, de boi. Os grandes fazendeiros vem todos pra comprar. Pagam uma nota nos animais. Já leiloei até sêmen, que é o gozo do bicho, acredita nisso? Queria que pagassem assim pelo meu.

Mas não é disso que você me conhece, provavelmente. Você não faz o tipo que compra gozo de cavalo (me deu um soquinho nessa hora). Você me conhece é dos remédios. Teve um tempo em que depois das propagandas aparecia uma voz que falava muito rápido, nem dava pra entender o que ele estava falando, mas eram os efeitos colaterais dos comprimidos. Isso eles faziam assim: pegavam um qualquer, gravavam ele falando e depois aceleravam a fala. Por isso que não dava pra entender nada.

Minha sorte é que alguém lá em cima decidiu que as pessoas deviam poder escutar direito essas letrinhas miúdas. Proibiram de acelerar a voz. Daí que o destino sorriu para mim. Você sabe quanto que custa um segundo de comercial na hora da novela? É mais que o preço de uma picape, só te digo isso. Minha voz é ouro para essa gente. Tinha um cabra que me conhecia do tempo da rádio, que foi para São Paulo e me convidou. Isso faz já cinco anos, desde então só faço isso. Agora mesmo fui gravar de um tal de demerox:

EsteMedicamentoPodeCausarNáuseaDiarréiaInfartoMorteSúbitaDesmaiosGastriteSonolênciaDoresCrônicasÉObrigatórioApresentaçãoDeReceitaSePersistiremOsSintomasOMédicoDeveráSerConsultado”

Senhores, lhes dou minha palavra: desde a infância que não gargalhava com tanto gosto. O sujeito não só é capaz de falar efeitos colaterais de remédios numa velocidade impressionante, como qualquer coisa que lhe venha à cabeça: declarações de amor, xingamentos, imitações. O homem é uma figura. Decidi convidá-lo para nosso jantar, apesar dos fléshes e stráites (imagina se ele faz um stráite flésh…), mas vocês não imaginam qual foi a resposta.

Ninguém se arrisca?

Meus caros, ele cobra cachê! Me pediu cinco mil reais, acreditam nisso? Promete uma apresentação de uma hora inteira, em que abordará quaisquer temas de nossa escolha. Por pouco não escrevi o cheque na mesma hora, mas como vamos todos desfrutar da apresentação, achei justo todos contribuírem. O que me dizem?

Por Henrique Fanini Leite

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