Varandas e Vassouras

Segunda Crônica por Andressa Barichello

Vejo o menino varrer a varanda de um apartamento. Você algum dia experimentou a sensação do que seja varrer sem levantar poeira, de varrer só pela vassoura?

Sentada no banco da pracinha, a cena do baile lá em cima é de um tédio contagiante. A magreza dele é como a dela, par perfeito. Eles, de fato, formam um par. Porque o varrer é dança feita a dois, rebolado. E o barulho da vassoura no chão é como a gente andando lado a lado enquanto pisa em folhas secas. Mas é verão e o verde permanece fixo nos galhos enquanto a vida, nutrida não apenas de seiva, evoca mais a interação entre corpos caídos do que a placidez das coisas que balançam ao vento sem desatar.

A vassoura já foi microfone e faz as vezes da paixão cujo corpo é preciso reclinar para um beijo. Por quê parecem mais românticos os beijos nos quais o outro é assim, tomado nos braços? Será o risco de que um corpo caia seco – diferente das folhas pisadas que chegaram ao chão macias, regidas por uma batuta, e que secaram somente depois? A paixão é coisa batuta, deve pensar o menino, porque não sabe dos contrapontos da murchidão. O menino desconhece as exigências de garantia, não desaprendeu, ainda, ser tudo uma questão de confiança, de entrega ou de correr perigo. 

Eu queria ter a idade desses que só brincam de ser adultos em tardes de terça-feira. Mas o tempo agora é de orquestras e de tentar equilibrar-se em galhos mais altos com medo de ser música debaixo dos pés de um outro. A ideia de estar entre os dedos de uma mão também assusta. Já não é possível testar as emoções contando com o auxílio de corpos inanimados sem flertar com a loucura. Depois de adultos nos recusamos a reconhecer que precisamos de alguém que se faça objeto e que podemos ser objeto do outro. 

Amar uma vassoura é assim, não ofende ninguém; porque não se trata, afinal, de um vício pela palha, um apego à madeira fiapenta do cabo, um cultivo de estimação pela coisa em si. Uma vassoura é um objeto de transição, um fazer sonhar. Apesar de toda sorte, como é difícil abraçar uma vassoura com os dois braços. A mão que a mantém de pé desmascara a fantasia. Mesmo assim é bom não precisar explicar que fantasias não são mentiras, são apenas um faz de conta necessário. 

Dance comigo como se eu fosse uma vassoura, até descobrirmos que vassouras nunca existiram. Há de ser engraçado e digno. Se vassouras podem se prestar a tantas coisas mais lúdicas do que a tarefa medíocre de encurralar sujeira, talvez eu me descubra outra pelo susto que será o momento em que você reclinar meu corpo para um beijo. A língua, às vezes, é apenas alguma coisa molhada sobre a pele. E se eu cair, do chão não passo. 

Um vaso de hortelã não faz julgamentos. Os gerânios balançam animados. A televisão se exibe para ninguém lá dentro e escutamos as pessoas dentro dela aqui de fora, na novela do real. Enquanto isso toneladas e mais toneladas de coisas invisíveis continuarão a despencar pelas laterais sem acertar a cabeça de ninguém. A varanda é concreto só no chão – vazada nas laterais. Você entende a importância disso? 

O menino se descobre observado. A descoberta é tardia, há tanto tempo que eu o observo. Uma pausa. Trocamos sorrisos, nos tornamos cúmplices. A valsa deles se converte em gafieira. Ao objeto se liga o meu olhar. Agora somos nós três, o triângulo perfeito.

Rio, aplaudo. Varre menino, dança livre – é maravilhoso não ter nada a empurrar pra debaixo do tapete.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora. 

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