Vai Lá, Fininho!

Vai lá fininho

Um restaurante praticamente vazio em plena hora de almoço. Garçons e garçonetes sem terem muito o que fazer. Na única mesa ocupada, quatro clientes almoçam vagarosamente.

*

E a doidinha lá, pegou?

Ah, Silveira, nem me fale. Guria cheia de ideia tronxa, parece que vive chapada. Sabe a última dela? Que toda vez que vê um filhote de gato fica com vontade de enfiar a fuça dele na boca porque acha “que o bigode deve fazer coceguinha no céu da boca”.

Sério?

Seríssimo, a conversa dela é daí pra baixo. Outro dia, no passeio público, eu querendo dar uns amassos, mãozinha debaixo da blusa dela, coisa e tal e a menina olhando fixo pra uma garça. E a garça ia pra um lado e ia pro outro e a guria me ignorando. Ô menina, que foi, não tá gostando? Aí ela disse “ah é que eu tô hipnotizando a garça”. Fiquei muito puto, quase mandei ela tomar. Olha, sei não. É gostosinha e tal, mas não tem nada na cabeça.

Ah Fininho, fosse eu, mandava ela hipnotizar o que eu tenho dentro da zorba!

E você acha o quê? Malandro que é malandro não bobeia. Já tô pegando outra. Olha a foto de perfil dela que tesão.

**

Marize, Marizinha, Marizoca, Marizona, amor da minha vida, coração.

Fala peste!

Me empresta o carregador?

Mas de novo, Fininho?

É que eu tô arrumando um esquema pra hoje à noite, filezão. Meu celular tá quase morrendo, empresta só um pouquinho, vai!

Nem um pouquinho nem um muitinho. Aff, mas só pensa em mulher. Não tem outro interesse na vida?

E tem coisa melhor? Cê conhece o Bukowski? “O ser humano é estômago e sexo”, gatinha. Libere aí.

Não sei quem é esse polaco e não vou emprestar carregador coisa nenhuma. Meu celular tá carregando e nem chegou no 100%.

Marize… Você não tem face, nem whats, nem instagram no celular. Pra que porra você precisa carregar até 100%?

Porque eu quero, pronto e acabou. E me deixa em paz, vai trabalhar seu sarna!

Vaaaaai Marizets, Marizinha, Marizona, Marizoults…

***

Fininho olha a janela pensativo.

Odeio Pombos.

Odeio mais enxugar copo.

Ô Silveira, deixa esses copos pra lá. Não tem quase ninguém pra atender nessa espelunca mesmo. Vai por mim, você devia gastar tempo entregando currículo porque esse restaurante aqui, ó, já deu. Se não fossem aqueles quatro ali, nem tinha porque abrir hoje.

Poisé, já tão ali faz mais de uma hora.

Mais de uma? Mais de três quase. Nunca vi gastar tanto tempo assim pra comer. Ó só o careca ali enfiado no prato, nem levanta a cabeça. Se ainda tivesse cabelo na nuca podia passar por cabeludo. A madame toda fina, toda perfumada, só tomou um suco. O magrelão tá palitando os dentes há séculos. E o gordo… sendo gordo.

Tá esquisito mesmo. Eita! Vai lá Fininho, acho que vão pedir a conta.

Aposta quanto que vão pedir a sobremesa?

Fininho vai até a mesa, conversa com os homens e volta escondendo um sorriso atrás dos dentes.

Você não adivinha… O gordo me perguntou que horas abre o puteiro. Bem que eu te disse que iam pedir a sobremesa.

E o que você falou?

Que geralmente abre à noite, mas que no meio da tarde já aparece gente na porta. Tá ficando famoso o bagulho ali. Acho que também é por isso que Seu Germano vai fechar as portas.

É. Ele acha que tem um restaurante familiar. Mas só tem motel ao redor e agora um puteiro de vizinhança. Por falar nisso, cadê a novinha que vem aqui atrás do Seu Germano?

A que parece uma índia? Hoje quando eu cheguei ela tava aí de conversa com ele. Ele que se cuide, se a patroa pega… Ô Seu germano, Seu Germano?

Fala mais alto que o velho é surdo.

Seu Germano!

Seu Germano pisca os olhos como quem acorda de um transe, abaixa o jornal e pergunta o que é.

Cadê a tua amiga Pocahontas? Já deu uns pegas?

Aahhh… O que vocês pensam que eu sou? A rapariga tem só 16 anos. Mentiu pra mim que tinha 18. Mas a chefona me garantiu que ela é de menor. Pensou que aí eu ia querer, mas assim é que eu não quero. Não gosto dessas coisas, prefiro ficar aqui na minha.

Mas hoje tava lá com ela que eu vi.

Cala a boca, Fininho! Vai lá, trabalhar, vai!

****

Fininho leva a conta para a mesa e volta com cara desconfiada. Cochicha para Seu Germano:

Acho que esse pessoal é polícia.

Se fosse polícia, tinha farda, carteira na mesa e o escambal. Polícia nunca perde a oportunidade de se exibir.

Nunca ouviu falar de polícia à paisana, Seu Germano?

Que polícia a paisana o quê. Não existe isso. O sujeito policial tá lá passeando, de folga, aí vê bandido, quer ser herói… Atira, prende, e depois inventa que tava trabalhando à paisana. Mas na verdade ele tava era de bobeira. Não gosto de polícia.

E tá devendo? Relaxe que o negócio deles é com o puteiro, eles até perguntaram os horários e não param de olhar pra lá. Ou eles tão programando a farra ou é treta que vai rolar, pode apostar.

Farra não é, que tem a madame ali no meio.

Acho que o esquema aí é swing. Cê sabe né, o que é? O cara vai com a esposa aí chega lá ele come a esposa de outro cara, o outro cara come a esposa dele e é assim, só patifaria… O careca é casado com a madame, porque, o senhor sabe, o homem casa e o cabelo cai de tanta raiva. E o magrelo faz casal com o gordo porque os opostos se atraem, hehehe.

Sério que o cara leva a mulher pra outro comer?

Só se for besta. O esquema é levar uma puta e comer a mulher dos outros. Só patifaria, Seu Germano, só patifaria.

*****

O grupo paga a conta e vai embora. O gordo e o Careca vão em direção ao casarão, o magro segue por outro lado com a mulher e depois também vai ao casarão.

Vai lá Fininho, vê o que tá acontecendo.

Fininho sai do restaurante. Silveira sente o celular vibrando. A voz do outro lado é de Fininho.

A Pocahontas tá falando com eles. Ela tá com um shortinho que, nossa senhora! Agora eles tão entrando na casa. Eu vou pra mureta ver mais de perto.

É, vai lá, Fininho!

Aposta que eu não vou? Eu vou.

De repente o estampido. Seu Germano e os demais funcionários se alarmam. Silveira se desespera.

É tiro, é tiro! Sai daí Fininho! Sai daí!

Aaargh!

Que foi? Levou um tiro?

Não! Eu me assustei e caí numa merda de cachorro.

Chegam vários camburões, carro de polícia e um carro da TV.

Saí daí, Fininho, é tiroteio.

Não! Eu tenho que filmar. Vou postar no face antes que apareça na televisão.

Volta pra cá seu lazarento! Fininho, Fininho?

******

Minutos depois a confusão se acalma. Um aglomerado de gente e repórteres está no local. Após dar entrevistas para a TV, Fininho vai ao encontro do pessoal do restaurante e faz o resumo da ópera.

Vocês nem acreditam. Era a polícia federal. Foi todo mundo preso. A dona do casarão escravizava umas gurias, tudo drogada, presas que nem cachorro. A madame é mãe de uma delas, a menina fugiu de casa, saiu falando que preferia ser puta do que voltar pra casa do padrasto. Tava tão grogue a coitada. Olhe, tinha esquema de tráfico, jogo, tudo tudo que não presta. Parece que tem ligação com político. Perguntaram se a gente desconfiava de alguma coisa, eu disse que assim, mais ou menos, que sabia que tinha algo meio estranho. Vou aparecer no jornal da noite, ainda bem que TV não tem cheiro, que eu tô com essa inhaca de caca. A bosta é que meu celular descarregou, nem deu pra filmar o pipoco. Tudo culpa da Marize, ô mulher ruim.

Por Natasha Tinet

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