Uma Serpente de 20 Outonos

Ninguém nesse domingo ameno carrega o peito tão chapado de adrenalina quanto eu. Acho que dessa vez eu o matei. Devo ter matado. Perguntarão por qual motivo, sempre querem um bom motivo. Talvez pensem que foi um enfarte fulminante. Não me perguntarão nada, apenas sentirão pena do meu rosto enlutado. Não. Não conseguirei ficar calada, terei de contar para alguém, nem é por culpa, é por ser uma coisa extraordinária. Matar alguém. Mas quem guardaria segredo? Tudo viraria manchete, uma morte banal, um motivo banal. Tenho verdadeiro ódio das coisas banais.

Passo pela porta da igreja e não consigo evitar o impulso de entrar. Por que o cachorro entrou na igreja? Porque a porta estava aberta. Palavra do senhor, graças a deus.  Articulo as frases sem som, a plateia católica fala por mim. Esqueci como se joga o jogo. Tantos anos em colégios católicos não deram em nada. Olho para o teto amarelado, estampado com nuvens desbotadas. No centro está Maria, oprimida por anjos. Parece a Vênus de Boticelli só que vestida. Ninguém é feio na casa de deus. As estátuas de santos e seus narizes perfeitos, senhorinhas arrumadas e muito perfumadas, mulheres tremendo os tornozelos sobre saltos e maquiadas com tanto blush que parecem terem acordado com um tapa de Deus na cara. Os homens fingem concentração, esboçam bocejos, querem ir embora, mas não vão. Apenas seguem o ritual. Sentam, levantam, cantam. O padre tenta cativar os fiéis com assuntos da moda e às vezes sinto muita vontade de rir, um riso alto, histérico. Ele sabia o quanto é perverso esse jogo, trocar de pele o tempo todo, ser cordeiro e depois lobo. Jurou impedir minha existência se. Não aceito mais desculpas.  O torpor me fez serpente.

Fecho os olhos e finjo rezar. Não consigo evitar suas mãos quase sem unhas apertando minhas coxas, seios, os dedos em um nó apertado, os polegares encaixados nos sulcos do meu pescoço. Quando me canso de resistir e o ar parece não mais entrar, ele me liberta do sufoco. Como um gato que captura a presa e não quer acabar com a brincadeira. Cabe a presa fingir-se de morta. Representação. O sangue e o corpo de cristo, amém. É hora da comunhão, sigo o fluxo e entro na fila. Tanto tempo que não comungo, nem com deus, nem com o diabo. Chega minha vez. Jesus gruda no meu céu da boca. Seu corpo não tem o mesmo gosto ácido da vida, não tem sequer sal. Não espero até o fim da missa. Fujo, mais uma vez. Não quero parar, mas o semáforo me obriga. Esperando para atravessar a faixa, dou de cara comigo mesma do outro lado da rua.

O murmúrio do vento bagunça meus cabelos e a trama do vestido. Uma coroa solar ilumina a silhueta no prédio espelhado. Eu me via pelos os olhos dos outros, com os olhos dele. Alguns homens são como vampiros. Vinte outonos de casamento e o batom vermelho pesa, faz sangrar no papel o lábio pálido. Não enxerga a boca no espelho opaco. Dirão que você perdeu a vaidade, mas na verdade sua imagem foi roubada. Eles não confessam que tem esse poder. Sempre vão dizer que a culpa é sua.

 Algumas presas guardam o veneno apenas para o final. Comecei com pequenas doses, só para ter um descanso, mas você sempre acordava revigorado, pronto para continuar acabando comigo. Das minhas mãos escorreram gotas cuja substância não pude conter e nem contar, diluíram-se na noite castanha e quente. Você bebeu olhando para mim. Ficamos quites e nos olhamos com cara de vencedores. A música acabou e seus braços convulsos me espancaram as costas com força, até enfraquecerem em pequenos espasmos. Selei os olhos corrosivos que me violentaram, paralisei os punhos que me pintavam de violáceo. Cansei de ser ruína. Agora me vejo. Já atravessei a rua, meu bem, enquanto você dorme o sono dos sonos, descubro a amálgama da vida. Gravito em meu próprio universo.

Por Natasha Tinet

1 Comentário

  1. Sérgio Souza fala: Responder

    Bom d+, Natasha! Eu passei por exp. semelhante: a religião imposta – o pecado, o inferno – pela minha mãe. E, da parte de meu pai, era o fim do mundo. Tudo eram prenúncios. Eu me endoidei (rs): o céu escurecia, eu deitava no chão, fechava os olhos, tapava os ouvidos, esperando tudo explodir. (Mais dramático do que Shakespeare!). Eu tb às vezes escrevo, e esses temas emanam de minha mente.

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