Um Mar de Rosas

Todos os dias o mesmo quarto de hotel.

 

A tábua de passar roupa aberta, o ferro em cima. Quantos peitos desamarrotados? Mesmo depois de frio, sempre em pé, o Black&Decker. Mesmo quando desligado, o temor. E o amor.

Aqui é tudo recente: construção e mobiliários entregues há um ano, minha chegada há quarenta dias, os dias ruins há uma semana, quando cansei de não ter casa. Quando cansei de ter casado, que o casamento é, talvez, o quarto de hotel da liberdade? Estivesse sozinha, iria embora da cidade. Sentiu a rima? Sentirá a minha falta?

Meus cabelos estão caindo demais. Deixei alguns enovelados ao lado da cama e outros no ralo do banheiro. Parece baixo testar assim a camareira? A solidão inventa jogos, querido.

Ninguém presta atenção às minhas necessidades.

A janela sempre fechada é como dormir num shopping. O banheiro sem janela é como sauna. Temos frequentado muito os shoppings e seus restaurantes por quilo e pouco os motéis, que é onde estão as saunas. Precisamos abrir janelas e comprar logo um fogão ou o apart-hotel will tear us apart, querido.

Inicio a faxina com um aspirador emprestado. Limpar a própria sujeira é meu imperativo de casa, mais ou menos como as saunas são, no meu imaginário, um mote para pensar sobre motéis.

 

Electrolux poderia ser nome de motel não fosse, antes, marca de eletrodomésticos. Mas não deve ter sido aleatória a escolha desse C mudo que, se na pronúncia não acresce muita coisa, na grafia é uma simples letra a mais a tornar tudo mais sexy.

 

Esse quarto é minha casa fake, meu escritório fake, minha vida freak. E talvez pudéssemos transformá-lo de unidade estilo bad&breakfast em um motel fake&freak. Transformar a falta de endereço em aventura; você não acha, querido? Enquanto houver aventura, dizem, não falta nada.

 

Cansei de jogar com a camareira. Quero jogar com você.

 

Mas estamos cansados.

É mais que justo estarmos cansados.

Eu sei.

 

Continuo a procurar num passado que já esfriou as respostas:

A cabeceira da cama tem uma marca escura, como a sombra de um planeta; quantas cabeças já recostadas?

A porta dos armários deixa ver marcas de dedos à luz das oito da matina.

Arrasto a cama e num horror adivinho manchas de sangue.

 

Uma a uma elas são deglutidas pelo aspirador: são apenas pétalas de rosa desbotadas.

 

Porque amar é inventar jogos, terminada a faxina talvez eu ande até a floricultura e copie essa ideia.

Na volta desocupo a tábua de passar.

Com esforço vê-se nela uma cadeira erótica. Eu&Você no lugar do Black&Decker?

 


Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

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