Um Homem Sério

Embora o cinema estadunidense das últimas décadas tenha continuado a nos proporcionar obras de grande qualidade, o eixo criativo se deslocou para produções independentes e de pequeno porte. Dadas as limitações orçamentárias, essas obras quase sempre precisam focar em premissas diretas e mais simples. Produções de médio porte – justamente aquelas com fôlego para abordagens mais ambiciosas – vêm se tornando cada vez mais raras, suprimidas por megaproduções exclusivamente comerciais. Dadas as circunstâncias, um filme como Um Homem Sério é uma relíquia, viabilizado apenas pelo grande prestígio dos diretores, os irmãos Coen. Em uma prova de que ainda há demanda por produções do gênero, a bilheteria de Um Homem Sério foi mais de quatro vezes seu orçamento. A obra também recebeu indicações ao Oscar, perdendo o prêmio de melhor filme para Guerra ao Terror.

Um Homem Sério é um dos filmes mais pessoais dos irmãos Cohen. A narrativa se passa na cidade natal dos diretores, St. Louis Park, Minessota, e trata de uma família Judaica. Mais especificamente, o enredo se concentra em Larry Gopnik, um professor universitário de índole irrepreensível que vê sua vida desmoronar. Confrontado com a injustiça, Larry questiona sua fé e suas convicções.

O tema central de Um Homem Sério é a incoerência moral do universo. Em outras palavras, o filme contrasta a visão antropocêntrica de que o universo deveria seguir alguma noção abstrata de justiça com a realidade “injusta”. Se podemos observar o estilo marcante dos Coen, Um Homem Sério é muito mais maduro que a maioria de suas obras. Usando a vida de Larry como conduíte, os diretores mostram vários aspectos do cotidiano sob uma ótica pessimista, mantendo certa ambiguidade moral por toda a duração do filme. As cada vez mais veneráveis autoridades com quem Larry se aconselha não só não oferecem consolo – parecem ter opiniões tão mais absurdas quanto mais renomados são na comunidade. As respostas nunca vêm, mas logo tornam-se irrelevantes, substituídas por novos problemas, num ciclo interminável. Não seria esse o retrato mais preciso da vida?

Por Henrique Fanini Leite

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