Um Corpo ao Meio

O homem e as duas meninas estavam lá, adiante na calçada. Não demorei para alcançá-los: eles passeio, eu retorno. Em escadinha, homem, menina de patins e menina quase bebê deixaram de ser imagem em câmera lenta. Antes do play, à distância, eu caminhava e pensava: quão boa a posição da menina do meio. Cambaleante com aquele seu par de rollers, ela tinha o pai e a irmã dedicados a ampará-la e a ajudá-la a encontrar equilíbrio na tarefa significativa que é aprender a andar de patins.

O lugar do meio pareceu toda vida tão confortável. Lembro da minha infância: quando era inverno os nossos três cachorros a dividir uma casa de madeira. Cada qual tinha a sua mas para driblar o frio socavam-se os três numa só. Foi com eles minha primeira aprendizagem sobre os preços que nos dispomos a pagar para estar com os outros; o quão relativa pode ser a ideia de conforto. O que ficava ao fundo, coitado, era constantemente empurrado pelos outros dois. O que ficava à porta, quase sem caber, era por certo o menos aquecido. E o do meio, sem dúvida, um privilegiado a ter onde apoiar a cabeça e esconder as patas. Filha temporã, naquele tempo eu sentia ser o que ficava à porta, aquele a quase não caber no espaço do calor. O meu irmão, esse sim sortudo, era o do meio. Com os corpos comprimidos pelos corpos que vieram depois, os meus pais bem podiam ser representados pela figura do cachorro resignado que, com pouco espaço para mover-se e respirar, torce pela breve acomodação dos outros como garantia ao próprio sossego.

O meio, entretanto, pode ser o ponto máximo de tensão num cabo de guerra. E se posso dizer isso é apenas porque um cabo de guerra foi o que vi ao alcançar pai e filhas. O lado esquerdo do corpo da menina do meio agarrava com determinação e graça o braço em triângulo do pai; como mulher a entrar na igreja rumo ao marido, um dia. O lado direito do corpo, entretanto, lutava para livrar-se da mãozinha da pequena criatura obstinada em segurar-se em qualquer parte sua: mangas, punho, mão, dedo mínimo.

A certo ponto tornou-se impossível suportar as investidas teimosas. E a menina do meio explodiu. Gritou com a outra, num pranto de ódio: que a largasse, que a soltasse, que a deixasse em paz! O pai, quase desolado, dispara: “Ela só quer ajudar!”

Com essa afirmação, não uma, mas duas meninas choram. E o homem, porque nunca foi uma filha a amar um pai, entende ainda menos a razão para tantas lágrimas.

Numa só frase dele, duas destituições.

A menina de patins não tem reconhecido seu direito a não querer as mãos da irmã; pior do que isso: supõe o pai que aquela ali, quase incompetente para manter-se sobre dois pés, possa ajudar em tarefa tão desafiadora?, na exata tarefa que diferencia o tamanho e o lugar de uma e de outra? Para essa, um sentimento de culpa: não desejar ajuda.

Por outro lado, a menina com seu feminino ainda recém nascido nunca quis senão frear um possível voo da mais velha; na melhor das hipóteses, ajudar a outra não seria mais que desfrutar ela mesma da ainda distante experiência das rodinhas. Para essa, outro sentimento de culpa: não desejar ajudar.

Com sua fala desastrada, aquele homem, pobre homem, confirma minha recente hipótese: a descoberta sobre quão difícil pode ser ocupar o tal lugar do meio. Ele, se quisesse, poderia resolver o imbróglio: bastava colocar-se entre elas. Mas ocupar suas duas mãos, cada qual com uma das filhas, seria dispor do corpo inteiro, seria talvez não reservar a si mesmo um pedaço – e isso ele não poderia. O pai, entre si mesmo e a filha mais velha. A filha mais velha entre o pai e a irmã. Na cena, a única a idealizar o lugar do meio é justamente aquela que jamais poderá ocupá-lo: a menininha. Em seu melhor e mais impossível delírio de grandeza, seu pequeno corpo, seus pequenos braços: e de um lado o pai, e do outro a irmã com os patins; e o amor entre eles impossível, barrado, submisso ao filtro do seu amor por ambos. Um dia a corda invisível desse cabo de guerra se romperá. E ela descobrirá que ser inteira exige ter sempre livre uma das mãos, para segurar o vazio.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

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