Um Contratempo

O cinema é uma arte de síntese, onde se misturam aspectos visuais, dramáticos, musicais e narrativos, para citar os mais evidentes. Filmes dão ênfases diferentes a cada um desses elementos, mas extremos quase exclusivamente audiovisuais, como Samsara, são raros. O outro extremo, obras predominantemente narrativas, em que os outros elementos assumem um caráter meramente ilustrativo ou de ênfase, é relativamente mais comum. Um Contratempo se insere nessa categoria, demonstrando como uma história bem contada precisa de muito pouco para funcionar.

A obra de Oriol Paulo é narrada pelo personagem principal, Adrián Doria, um empresário de sucesso que é acusado de ter matado a amante em um quarto de hotel. Com o aparecimento de última hora de uma nova testemunha de acusação, uma preparadora profissional de testemunhas, Virginia Goodman, é enviada para ajudá-lo com seu depoimento. Adrián tem apenas três horas para revisar todos os acontecimentos relacionados ao crime e conseguir encontrar algum sentido para o que ocorreu.

Um Contratempo trabalha com dois planos narrativos: o presente, em que Adrián e Virgínia revisam os acontecimentos, e uma série de flashbacks que ilustram os depoimentos de Adrián. O empresário muda sua versão dos fatos frequentemente, conforme Virginia aponta inconsistências lógicas no relato. Assim, os mesmos acontecimentos são narrados diversas vezes sob novas perspectivas, numa sucessão de plot twists. A obra tem praticamente a mesma estrutura de Os Suspeitos (o de 1995, não o de 2013), com maior dramaticidade e menos planos mirabolantes. Como a maioria dos filmes do gênero, há uma grande dose de fatos improváveis, mas a lógica interna do enredo é impecável. Mais que isso, o diretor parece brincar com as convenções de gênero: conforme vemos nossas hipóteses descartadas, somos levados a aceitar versões cada vez mais rocambolescas do crime, até nos ser revelada a solução evidente, mas que (pasmem) nem chegamos a considerar.

Por Henrique Fanini Leite

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