Um Conto Chinês

O Cinema argentino nos trouxe diversas grandes obras que, pela proximidade geográfica e cultural, muitas vezes refletem – ou ao menos dialogam com – a realidade brasileira. Um exemplo de comédia nessa veia é Relatos Selvagens. Em contraste, Um Conto Chinês tem como plano de fundo algo particular da história de nossos vizinhos: a guerra das Malvinas. Se não possuímos trauma equivalente na história nacional, ainda assim é fácil compreender a psique dos personagens e os temas abordados. A obra foi sucesso de crítica e bilheteria, um exemplo primoroso de feel good movie.

O enredo de Um Conto Chinês segue as linhas tradicionais do gênero. Roberto é um homem recluso, traumatizado por sua participação na guerra das Malvinas. Cheio de manias e compulsões, Roberto procura provar a arbitrariedade do destino ao colecionar recortes de jornais reportando tragédias insólitas. Certo dia, um homem é jogado de um carro em movimento diante de seus olhos. O homem, Jun, é chinês e não fala o espanhol. Iniciada uma convivência forçada, Roberto se dará conta das inúmeras coincidências que tornaram aquele encontro possível, o que o fará reconsiderar suas amargas convicções.

O filme de Sebastián Borensztein se apoia na mais comum e mais sedutora das mentiras do cinema: a de que a vida pode ir da água para o vinho sem nosso esforço, apenas devido a algum evento aleatório. O evento em questão beira o fantástico, requerendo forte apelo emocional para nos fazer “comprar” a história. Essa escolha arriscada funciona, em grande parte devido a uma performance excepcional do elenco. O foco dramático é em Roberto, com Jun atuando como uma contraparte cômica. O humor mistura ironia inteligente com pastelão, o que deve agradar boa parte do público. Assumidamente convencional, Um Conto Chinês consegue impor naturalidade a situações das mais absurdas, nos libertando, ainda que por alguns minutos, dos tristes grilhões da realidade.

Por Henrique Fanini Leite

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