Um Café Só Pra Nós Dois

um cafe para nos dois

Dúvida e polícia. O homem ainda chorando e foi assim. Durante dias ele gritou no portão. Nada. O outro havia decidido o fim. Naquela manhã foi recebido, mas as coisas continuariam como estavam. Choro contido. Difícil separação. Foram à cozinha, algo para beber. O pó de café no filtro esperava a água quente. O visitante se antecipou no fogão. O choque do aço inox queimou a pele recém barbeada do anfitrião. Dividiu a dor, água fervendo braços mãos chão. Urrou a voz que tanto lhe sussurrava. Como era? Pancadas na têmpora. Largou a chaleira, queimadas as falanges dos dedos. O outro, desacordado, lhe teria mais ódio ao acordar. A faca que jazia no escorredor, arranhou a quina da pia e encontrou seu lugar no terceiro movimento. Estática, fincada ao peito como um monumento. Nenhum tremor de cílios. Os joelhos mornos, o sangue servindo como bálsamo para o ardor dos dedos. O som do rádio de pilha anunciou. Vam’embora vam’embora/ olha a hora/ vam’bora vam’embora. Um último passeio. Levou-o até o carro, o corpo apoiado nas esquinas dos seus braços. Sublimou o incômodo das mãos apertadas no volante anatômico, sorrindo, cantando, amanhã de manhã. Atravessou a avenida e freiou na ponte. Precisou abraçá-lo para que saísse do carro, sentiu o cabo da faca contra o próprio peito. Pensou na queda e não conseguiu, soluçou pedidos de perdão. Voltou para casa disposto a lhe preparar um novo café. Sabia como tirar as manchas das roupas deles, viu na TV. Ia pôr água para ferver, o vento nos galhos torturando a consciência. Quem vai regar as plantas? Elas ficarão desfiguradas e mortas. Correu até o jardim. Precisa-se de alguém que regue as plantas. Formigas em fila. Alô, eu.

Por Natasha Tinet

2 Comentários

  1. Juliana Bianantese fala: Responder

    Gostaria de sugerir que os leitores escrevessem aqui o que entenderam deste texto, porque eu não entendi nada!

  2. A mim parece o assassinato de um amante.

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