Tillsammans (Juntos)

Lukas Moodysson tem uma trajetória profissional incomum: atingiu fama como poeta, com quatro obras publicadas antes dos vinte e quatro anos de idade. Buscando uma audiência mais ampla, estuda cinema e rapidamente torna-se um dos diretores mais bem sucedidos de seu país natal, a Suécia. Tillsammans, “juntos” em sueco, foi seu segundo longa, lançado em 2000. Praticamente desconhecido no Brasil, o filme foi comercializado como uma espécie de comédia feel good nos países anglófonos, uma definição extremamente superficial.

A trama de Tillsammans é policêntrica, mas tem como linha mestra o relacionamento entre Elisabeth e Rolf. Após uma briga violenta, Elisabeth decide abandonar o marido e ir viver com o irmão, que fundou uma comuna residencial em Estocolmo. O filme se passa na década de 70, período em que esse tipo de experimentação social era comum na Suécia. A chegada de uma pessoa convencional, por assim dizer, traz tensão à casa, fazendo com que seus habitantes questionem suas convicções.

Antes de mais nada, um alerta: a trilha sonora de Tillsammans é baseada em hits suecos dos anos 70, dentre os quais alguns sucessos do Abba. Embora a maioria da crítica tenha elogiado este aspecto, é inevitável a sensação de “televisão brega” em algumas cenas. Gostos musicais à parte, a obra de Moodysson é capaz de satirizar as idiossincrasias do pensamento de esquerda da época sem soar demagógico ou panfletário. Pelo contrário, o diretor prefere dispensar as piadas fáceis em troca de um retrato mais profundo das tensões trazidas pelo convívio próximo e comunal. O filme constrói uma trupe de personagens quase caricatos, mas os trata de forma séria, ilustrando através de seus dramas questões importantes daquele sistema de convívio. Em especial, Moodysson trata do desenvolvimento infantil dentro desse ambiente, utilizando-se da inocência infantil para tirar de contexto questões políticas, com grande efeito cômico. Se hoje temos muitas obras que problematizam nosso individualismo exacerbado, Tillsammans nos faz faz ver o outro lado: juntos, sim, mas talvez não tanto assim.

Por Henrique Fanini Leite

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