Tempo

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Meu pai ainda sabia como manusear um jornal. De manhã, o café fumegando, colocava os óculos de aro fino e escondia o rosto por trás daquelas grandes folhas cinzentas. Primeiro lia as manchetes, aproximando as mãos para mudar de página, depois retirava o caderno com a matéria que escolhera, segurando a folha com uma só mão. Eu gostava de reparar no movimento dos olhos, enormes atrás das lentes. Moviam-se lentamente da esquerda para a direita, como numa máquina de escrever, e então (plim!) num salto para o começo da próxima linha. Suas reações eram amplificadas pelas rugas – já eram muitas –, de forma que era possível antever o resultado do último jogo do Coritiba ou as novas da política só pelas expressões nelas desenhadas.

Eu, como que trazendo o hábito para tempos mais modernos, acompanhava as notícias pelo celular, também à mesa do café. Embora minha presença claramente o agradasse, raramente trocávamos mais que uma ou outra palavra. Também nunca lhe veio à cabeça a ideia de me ensinar a ler jornal, e eu, quem sabe receoso de violar aquele ritual, nunca pedi que me ensinasse.

Me pergunto se aprender a folhear um jornal era como aprender a andar de bicicleta, algo que devia ser ensinado até certo ponto, mas que depois dependia muito mais de prática do que dos esforços de quem ensina. Quem sabe alguns tivessem que admitir, disfarçando o constrangimento, “meu filho não sabe ler jornal”. Ou quem sabe meu pai e todos os homens respeitáveis de seu tempo tenham aprendido a ler jornal por conta própria. Pode ser que manusear um jornal fosse para eles algo tão fácil quanto folhear uma revista, e que ele não fosse capaz de se lembrar de tê-lo aprendido, da mesma forma que ninguém sabe quando ou como descobriu que para virar a página basta segurar a pontinha do papel e movimentá-la para a esquerda.

Por mais de quarenta anos, foram poucos os domingos em que meu pai não leu jornal. Assim, não é surpresa que tenha sido durante esta atividade que surgiram os primeiros sintomas. Começou pelo braço direito, ligeiros tremores, quase invisíveis, mas que faziam as letras tremerem. Não havia o que fizesse parar, nem mesmo apoiando o braço inteiro na mesa. Se com a mão boa ele segurasse o outro braço, os tremores paravam imediatamente, mas bastava soltá-lo para que voltassem. Depois do braço, veio uma perna, também a direita. O jornal ficava agora em uma mesinha, e meu pai folheava-o com o braço bom, sapateando de um pé só. Sua voz mudou, tornou-se baixa e apagada, assim como ele, que encurvava-se sob o peso de si próprio – murchava, seco, velho. E assim como as árvores, que não protestam contra o machado que as decepam, também meu pai sofria estoico: os músculos da face já não obedeciam. Tinha dificuldade para andar, o que fazia vagarosamente. Caía, levantava, não desistiu. Pedia que o ajudassem com o jornal, mas minha inaptidão o incomodava. Me sentia tentando dirigir um carro pela primeira vez. Enquanto ainda podia falar, me dava instruções, mas acabou resignando-se a força, incapaz de controlar as pregas vocais.

Quanto ao jornal, este durou mais algum tempo. Chegava em casa toda manhã, impecavelmente dobrado –  e assim permanecia junto com centenas de seus pares, na dispensa. Partiu de forma mais súbita: num telefonema, me avisam que a edição impressa iria acabar. Agora, quando olho para o vazio na cadeira de meu pai, percebo também a ausência do jornal, e acompanhado apenas pelo tique taque do relógio, contemplo: tudo envelhece, definha e morre.

Por Henrique Fanini Leite

1 Comentário

  1. Luiz Carlos Kovalski fala: Responder

    Gostei. Sensível e proficiente. A temática Tempo, Saudade, Mudanças é perturbadora pois sempre vem acompanhada de sentimento de perda.

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