Taurus

O diretor russo Aleksander Sokurov é frequentemente caracterizado como o herdeiro artístico de Andrei Tarkovski. A honraria não é por acaso: Sokurov foi colega do grande mestre russo no começo de sua carreira, no VGIK, e suas primeiras obras mostram grande influência estilística de seu “mentor”. Apesar disso, Sokurov não se limitou a seguir os passos de seu predecessor, criando obras incrivelmente ambiciosas, como Arca Russa e Pai e Filho. Taurus é o segundo filme de sua tetralogia sobre o poder e, como seu predecessor, Moloch, mostra uma figura histórica sob um ponto de vista pouco usual.

Nesse caso, a figura em questão é o líder bolchevique Vladimir Lênin, que é retratado durante seus últimos dias de vida. Cercado de enfermeiras e auxiliares, Lênin já não tem nem mesmo o respeito de sua esposa. O tema central da obra é o declínio do poder e seu impacto psicológico nos que já foram poderosos.

É importante conhecer a história dos primeiros anos da União Soviética para poder apreciar a obra: antes mesmo do fim da guerra civil (1917-1922), Lênin já sofria com diversos problemas de saúde, incluindo dois derrames em 1922. Assim, conforme o estado comunista que idealizou tomava forma, Lênin se via incapaz de governá-lo, uma condição tão frustrante que levou-o a contemplar o suicídio. O estilo visual é característico de Sokurov, com a imagem quase desfocada e matizes esverdeadas. Isso reveste a obra de uma aura onírica, o que combina com a ideia da morte e das ilusões de poder que Lênin ainda entretinha. O enredo é bastante solto, funcionando mais como um estudo de personagem do que como narrativa propriamente dita. Assim, não é um filme para se distrair – é preciso interagir, conjecturar, e, sobretudo, enxergar Lênin para além da figura histórica. Ainda que, comparado com personagens de mesmo calibre, Lênin seja pouco representado no cinema, é sempre bom quando nos lembram: mais que símbolos, todos somos seres humanos.

 Por Henrique Fanini Leite

 

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