Sublinhar

Fui interpelada sobre qual a razão para mais um, se já tenho tantos e ainda estão todos pela metade. Dois na bolsa, meia dúzia sobre a pia do banheiro, um ainda fechado na gaveta da escrivaninha. Sim, é o que tenho, concluo quando tento, por alto, fazer as contas antes de repelir a acusação feita por um homem. Eu, a grande acumuladora? Confiaria se a hipótese da compulsão fosse aventada por uma mulher. Eles, bem, eles um dia disseram que bocas vermelhas eram sinal de promiscuidade. Hoje ampliar cada vez mais o tom das marcas é vício; tempos novos, tentativas de castração idênticas? Não vou usá-los até o talo, eu  gosto do que fica pelo meio porque também sou dividida. Continuarei, livre e libertina, a escolher qual apetece mais para o dia. E talvez à noite esteja com outro, por que não?

Batons!

Adoro usar batom. Todos os dias, ainda que não vá sair de casa, eu passo.  Não é gloss, não é hidratante labial, é batom, comprado na farmácia, na loja de cosméticos, encomendado pelo catálogo. De preferência matte, isso é, sem brilho. Os desse tipo, ao contrário dos cremosos, não correm fácil, são como tentar deslizar uma borracha sobre a pele. Se ainda não experimentou, experimente. Não sei se prazer maior é o resultado de efeito seco ou a derrapagem contida com que o bastão preenche de cor a pele fina da qual se enxugou a saliva. Sempre tive o pudor de, antes, secar a boca com a lateral das mãos, como se a umidade pudesse fazer mal à cor. Coleciono batons, mas uso com cuidado: quero-os conservados e não os empresto, embora às vezes seja inevitável perdê-los. Quando é assim torço para que sejam aproveitados, embora saiba que sobre eles recai certo interdito, fossem íntimos como escovas de dente.

Quando no chá de panela de uma amiga perguntaram se alguém tinha um vermelho para emprestar eu, porque não sei mentir nem recusar, fui a primeira a dizer sim. Esqueci que nessas ocasiões lá vão eles pela testa, pelas bochechas e até pelo nariz. Sempre preferi escolher que a noiva rebolasse ou bebesse um drink amargo.

Talvez a minha incapacidade de intervir assim no corpo de outra mulher date dos tempos em que eu, menina, vasculhava playboys no revisteiro; ao encontrar as páginas com elas nuas eu enchia os corpos de rabiscos. A ideia não era encobrir qualquer perna, peito, bunda, a tentativa era atravessá-los. Excitada, misto de alegria e angústia, eu reforçava o gesto com a caneta sempre no mesmo ponto, até rasgar.

Primeiro o lábio superior esquerdo, depois o direito, depois o inferior. As maquiadoras dizem que não se deve espalhar esfregando um no outro, mas a cobertura só fica homogênea quando há transferência. O conselho das profissionais deve ser para quem ainda não pegou o jeito de esfregar só o meinho, pra não borrar. Eu não borro nem quando falta espelho. As minhas mãos conhecem de memória as bordas dos meus lábios… E isso, dito assim, é tão erótico.

O batom matte, confesso: não está para borracha e sim para caneta, pleno em sua essência de bastão com máximo atrito. O que fiz com os corpos nus de outras mulheres foi uma marca de amor ou uma tentativa de produzir estrago?

Passo batom como quem fura, ainda, uma revista… Mas o corpo onde firmo o pulso agora é o meu, carne, osso, desejo. Encontrei, enfim, um signo de mulher.

Passar batom todos os dias é percorrer e sublinhar uma parte de mim, com traços finos, de gozo e bem querer. Há quem não dispense um creme, um perfume, um penteado. Eu escolho sempre a boca, ela é o que, na carne rasgada, há de mais próximo para o simbólico com o qual invento meu feminino: palavras.

 

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

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