Sorteio

Segunda Crônica por Cid Brasil

Confesso meus pecados, já fui um desses cronistas de olhar inocente que estão sempre ávidos pelo prosaico e deslumbrados a cada ônibus lotado ou a cada mendigo que canta e dança sob a chuva. Acho que perdi esse cronista-esperança quando escrevi um texto que quase matou um tio muito querido. Não foi o texto em si, mas uma superstição em mim diz, parafraseando justamente esse tio, há males que só vem para o mal mesmo.

Era uma crônica que falava sobre a felicidade do irmão do meu pai, morador do interior do Rio Grande do Sul, em ter sido contemplado por uma rádio com um bolo confeitado e um refri de dois litros num sorteio. Quando ele me ligou contando do sorteio, fiquei deslumbrado com o fato de ainda existirem rádios no interior que faziam sorteios e premiavam os ouvintes com coisas tão prosaicas como bolos confeitados e refrigerantes, ou relógios de parede em forma de bule de café – o outro prêmio, caso você não quisesse o bolo.

Tio Pedro é cego e sua alegria de viver e disposição são contagiantes, independentes dos dia de sorte (ou azar). E mesmo tendo perdido a visão aos 47 anos de idade por um erro médico, segue fazendo piadas com a própria situação e movendo mundos e fundos no bairro onde mora através de abaixo-assinados e discursos na sua garagem. Já conseguiu posto de saúde e calefação para uma vizinha mais carente.

O tal texto que escrevi era mais ou menos como esse parágrafo acima, junto ainda de uma emaranhado de breguice e clichês que enalteciam as pequenas alegrias e os afagos do acaso. Ganhei cinco curtidas no Facebook: Uma tia, duas primas e a minha mãe. Um amigo da época da escola, hoje radialista e que não sorteia bolos, compartilhou o texto. Me senti o Rubem Braga. Dias depois telefonei para meu tio para saber da festa de premiação e se alguém lhe havia lido o meu texto. Quando sua esposa atendeu, estranhei o desânimo na voz.

O teu tio tá na UTI… Teve uma infecção estomacal. Como não melhorava tivemos de baixa-lo no hospital.

Temendo que o motivo da internação fosse a ruindade do meu texto, gaguejei algumas perguntas.

Foi por causa do bolo lá da rádio… Tava vencido – respondeu ela – todo mundo aqui passou mal, mas por alguma razão ele foi o que mais sofreu.

Foram trinta dias de apreensão na família e medo dele ter a vida levada por um bolo com guaraná. Acho que nunca me senti tão impotente como nessa vez e cheguei a telefonar para a tal rádio afim de esculhambar geral e dizer que deviam se envergonhar de sortear a morte em forma de merdas como aquela história de bolo para os pobres ouvintes. Por quê não davam dinheiro carro, casa, telesena, como todo mundo?

Quando me acalmei, o locutor de plantão, com aquelas típicas vozes canhestras, disse que eu era o terceiro que ligava para reclamar da situação do Tio Pedro. Pediu desculpas em nome da rádio, até porque meu tio era um ouvinte muito querido, mas segundo ele, a culpa talvez fosse do supermercado que sorteou o bolo, pois eram anunciantes da rádio e aquela era uma promoção celebrando o aniversário do supermercado.

Sabe dizer se alguém já telefonou para o supermercado para xingar? – Perguntei.

O radialista, talvez porque fosse entrar no ar ou porque já tivesse se enchido de mim, bateu gentilmente o telefone na minha cara. No número do supermercado apenas tocava Pour Elise num loop enlouquecedor, entrecortado com slogans e promoções de vassouras e produtos de limpeza. Foi ao som da composição de Beethoven, um clássico das secretárias eletrônicas, que tive a ideia de retirar o texto brega do ar, imaginando que aquilo é que talvez fosse a causa ou o vodu do quase passamento de meu tio, logo ele, um devoto leitor de Flaubert durante a adolescência.

Porém a vida também tem seus problemas de enredo. Quis algumas dessas virgulas erradas do destino que, graças ao bolo vencido e a internação do meu Tio, que seu médico descobrisse um câncer de pele em estado relativamente avançado, coisa que sua esposa acreditava ser apenas uma dessas sardas ganhas com a idade.

Quando finalmente ele se livrou da infeção e do câncer, fizeram uma festa em sua casa e eu fiz mais uma participação telefônica nessa história. A primeira coisa que lhe perguntei é se na comemoração regada a churrasco e salada, haveria também um bolinho com guaraná.

Não, não – ele disse sorrindo – nesses brindes todos, acabei descobrindo que também sou diabético.

Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce.

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