Sísifo Moderno

Se não estivesse lá todos os dias, como poderia ter certeza de que sempre o mesmo homem conduzia aquela imensidão engenhosamente construída, aquele gigante de ferro cujo peso e velocidade ignoravam tudo e todos?

Aos poucos, a máquina se aproximava e quase perdia a monstruosa imponência, mas continuava seu inevitável percurso. O barulho crescendo num contínuo desesperador. O chão ao redor vibrando o atrito incansável de ferros que se chocam. Um gigante deslizando pelos sulcos cravados no concreto.

Diante de todo aquele aço subjugado, o homem persiste, desesperadamente parado.

O condutor, já acostumado às adversidades que sua profissão lhe impunha, percebeu em seu observador um desejo. Tarde demais. O vento já alcançava seus cabelos.

Das inúmeras pessoas que o rodeiam na plataforma, esse anônimo já gravou algumas feições. Rostos comuns numa multidão de desconhecidos. Sentiu-se ainda mais só. Sentiu ainda mais a necessidade do fim. E permaneceu, inabalado.

Já pode distinguir as marcas exageradas no rosto do condutor. Quarenta e sete anos, sempre julgou. O mesmo bigode, o mesmo uniforme azul celeste surgia do fundo negro de um túnel sem fim.

A distância diminui ao ritmo de seu coração. O peito arfa amedrontado. Lança ao seu redor um olhar de súplica. Alguém o compreenderia e o seguraria no último instante?

A máquina não espera. As toneladas que lhe constituem aproximam-se incansavelmente. Algumas pessoas distanciam-se numa atitude de segurança, de verdadeiro pavor. Não querem ser testemunhas de algo tão trágico.

O trem, sujo como tantas vezes o vira, rasga os trilhos à sua frente. Acovardado, vacila o passo e acompanha, com os olhos, o brilho metálico que, como em tantos outros dias, lhe pareceu tão belo e eficaz.

Por Julian Guilherme Fermino Guimarães

					

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