Sinédoque, Nova Iorque

A estreia do aclamado roteirista Charlie Kaufman como diretor polarizou opiniões. Se alguns críticos detestaram a natureza autoindulgente e pretensiosa da obra, outros viram nela uma produção ambiciosa capaz de abordar com originalidade temas que vão desde psicologia jungiana até metalinguagem (esta, por sinal, marca de estilo de Kaufman). Dada a recepção do filme, não é surpresa que apareça com igual frequência em seleções dos melhores e dos piores filmes da primeira década do século XXI.

O título desta obra é um jogo de palavras entre Schenectady, New York, cidade em que se passa o enredo, e Sinédoque, figura de linguagem em que se utiliza uma parte para descrever o todo (falar “pôr comida na mesa” para se referir a ser capaz de se sustentar financeiramente, por exemplo). O filme é considerado pós-moderno em estilo, mas o título resume bem o enredo: após se divorciar da esposa, o ambicioso diretor de teatro Caden Cotard recebe um grande prêmio, que lhe permite trabalhar sem preocupações em sua próxima peça. O diretor procura dar caráter universal a sua obra através do realismo e, para tal, aluga um enorme galpão, em que manda construir um modelo da cidade de Nova Iorque. Dentro do modelo, há uma casa, onde se passa a ação. Sem maiores fontes de inspiração, Cotard usa a própria vida como inspiração. Conforme a produção se desenvolve, torna-se difícil distinguir entre a realidade objetiva do personagem e a realidade que ele inventa para si, no palco.

Mesmo antes de Sinédoque, Nova Iorque, Charlie Kaufman já era conhecido pelo caráter metalinguístico e ambicioso de seus roteiros. Aqui, sem a força mediadora de um diretor independente, vemos as ideias de Kaufman na sua expressão máxima. O resultado é um filme extremamente inteligente, profundo, contemporâneo, experimental e, justamente por isso, extremamente complexo e idiossincrático. Amando ou odiando, uma coisa é inegável: Sinédoque, Nova Iorque é o cinema como arte, sem meios-termos e sem desculpas.

Por Henrique Fanini Leite

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