Shoegazing

shoegazing conto

Dobrando à direita, notava-se antes de mais nada uma pitangueira, única árvore da rua, iluminada diretamente pela luz amarela do poste, que a deixava inteira marrom. O pavimento era de paralelepípedo, enquanto a calçada exibia diversas combinações de ladrilhos, desde o tradicional petit pavé, os mosaicos deformados por sucessivos reparos mal feitos, até blocos rachados de concreto. Havia carros estacionados apenas do lado direito, três, um deles abandonado, e na próxima quadra (era uma descida) podia-se ver uma aglomeração de pessoas em volta do que era provavelmente um bar.

Não fosse o chuvisco irritante, Gustavo teria continuado a vagar em sua procura pelas figuras carimbadas do local: Costa e seu papo sobre música; Santiago e seu papo sobre mulher; Danilo e seu silêncio contemplativo de japonês. Estava, aliás, muito mais para este último, e quem sabe por isso aquela porta de madeira tenha chamado tanta atenção. Notou-a depois de cerca de dez passos introspectivos, quando resolveu parar de olhar para o chão e tentar decidir seu rumo “de uma vez por todas,” embora soubesse que bastariam duas quadras para mudar de ideia. Parecia um bar qualquer, mas lhe atraía a aparente indiferença: havia um pequeno sinal neon “aberto”, mas a porta estava fechada e não havia nada indicando o nome do estabelecimento. Não haviam filas, fumantes ou seguranças tampouco. Podia-se escutar os baques surdos de um bumbo de bateria, bam bam – pausa – bam bam – …

Ao sair do banheiro, o som abafado transformou-se em música. Barulhos intermitentes de sintetizadores experimentais cresciam e se mesclavam com as guitarras distorcidas, só para voltarem, cada vez mais graves e lentos para o fundo do conjunto, dando lugar a algo que dificilmente se poderia chamar de harmonia, embora os pedais dos guitarristas modulassem o ruído bruto, tornando-o algo cíclico e hipnótico. O vocalista cantava com a boca grudada ao microfone, quase num sussurro, de forma a destacar os sibilares das consoantes que repetiam-se ritmicamente, voz de sonho: o eco de um penhasco dentro de uma catedral.

A parte rítmica, baixo e bateria, não era interessante, limitando-se a prover uma estrutura sobre a qual as diversas interações harmônicas causadas pelos efeitos eletrônicos pudessem se destacar. Um leigo pensaria que os músicos pouco faziam para criar aquele som: passavam a maior parte do tempo agachados, mudando as configurações de suas pedaleiras, e só raramente pareciam tocar alguma coisa nos instrumentos.

“Shoegazing,” Gustavo escutou ao pé do ouvido, e, como que acordando, percebeu uma garota apoiada na mesma mesa que ele. O local pareceu finalmente se materializar: pé direito muito baixo, pouquíssima iluminação, muitas colunas feitas para parecerem de pedra, fumaça de gelo seco e luz azul no palco.

Não teve pressa de olhar a menina, não por desprezo, mas simplesmente pela dificuldade em mudar seu foco de atenção. Ao vê-la, lembrou imediatamente de Trish Keenan, vocalista do Broadcast, banda que dificilmente o leitor conhecerá. Uma pesquisa rápida num smartphone lhe permitirá ver uma mulher longe do “ideal feminino,” de cabelos negros e uma franja cobrindo os olhos, normalmente penteada para um dos lados. Nossa heroína tem o mesmo formato de rosto, mas não faz questão de pentear a franja. Seu nariz é mais arrebitado, mas os lábios possuem o mesmo sorriso negativo, embora um pouco mais finos. Era uma daquelas meninas que postam montagens esquisitas no facebook, com diversos filtros diferentes e toda uma parafernália de adereços para esconder o rosto, sobretudo óculos escuros John Lennon, presentes em ao menos metade das fotos publicadas. Ainda assim era bonita, e, de qualquer forma, Gustavo estava disposto a aceitar qualquer tipo de esquisitice vindo de uma menina capaz de sussurrar shoegazing ao pé do ouvido de um desconhecido. A voz não era exatamente sensual, um pouquinho grave, mas excepcionalmente suave, vinda de algum devaneio chuvoso. Um tipo de beleza paradoxal, e quem sabe por isso tão atraente.

“Se eu te respondesse já perguntando seu nome, seria uma demonstração de interesse direta demais, e acho que não seria muito verossímil você começar a gostar de mim,” falou de olhos baixos.

“Não mesmo. Eu ia pensar que você é mais um daqueles ‘caras legais,'” olhos nos olhos, gesticulou as aspas, “embora toda essa teoria sobre abordagem de mulheres tenha sido feita com base num ambiente muito diferente desse”

“Muito,” concordou. “Me chamo Gustavo, por sinal”

“Helena”

Houve um momento de hesitação. “Porra, não tava lá muito afim de começar uma guerra”

Esquecendo da franja, a menina tentou responder com um movimento de sobrancelha, obviamente ignorado. Seguiu-se quase um minuto de silêncio.

“Não é por causa da mitologia,” voltou a garota.

Gustavo tentou esconder a cara de surpresa, que acabou virando uma careta de sofrimento. “Mas é por causa de alguma coisa?”

“Meu pai é professor de literatura – não dos melhores, pelo jeito -,” deu um breve sorriso, “porque eu tenho esse nome por causa do livro do Machado”

“Do Machado?”

“Do pior livro dele, provavelmente você nem conhece”

“Conheço sim. Te acho uma personagem digna. Sempre quis conhecer uma Helena desse tipo, mais que do outro”
Helena suspirou. “Ninguém aqui deveria se chamar Helena. Só vem gente esquisita”

“E tímida,” completou Gustavo, “É estranho ter que vir num lugar assim para poder conhecer alguém”

“Sim!” Ela riu. “Como se todo mundo combinasse: vamos ser tímidos juntos”

“Mais que isso: olha para essa galera: parecem uns zumbis… Suponho que quem vem aqui vem mais para curtir o som”

“Ingênuo…” Brincou Helena, “só experimenta dar uma secada numa garota qualquer. Aquela japinha ali, por exemplo”

De fato, bastaram poucos segundos observando a outra menina para que ela olhasse furtivamente para trás e comentasse qualquer coisa engraçada com uma amiga baixinha ao lado. Gustavo voltou-se para Helena e deu um sorriso, imediatamente se censurando pela “cara de bobo”. Desviou o olhar por um instante, só para voltar a encarar a garota (que já não olhava para ele), então o palco, e finalmente os próprios pés. As interações delicadas que faziam do ruído música perdiam-se nas cadeias intermináveis de pensamentos, todos criados, modulados, distorcidos e enfim destruídos pela presença da garota. Sentados lado a lado, de tempos em tempos os dedos mindinhos dos braços apoiados na mesa se encostavam. Passavam as músicas, não se olhavam, mas Gustavo se aventurava em expedições cada vez mais ousadas, acariciando com o dedo mínimo o anelar da garota, e uma única vez atingindo o longínquo dedo médio.

“Quando eu imagino uma coisa,” Falou no ouvido de Helena, “Quando eu imagino uma situação, uma cena, alguma coisa do tipo, normalmente tem uma parte em que eu falo de quantas vezes eu imaginei isso acontecendo, mesmo sabendo que estou falando isso num diálogo imaginário”

“Você já imaginou isso aqui acontecendo?”

“Acho que estou imaginando agora”

Helena não riu. “Nas suas situações imaginárias, você conta para seus amigos imaginários que tudo é fruto da sua própria cabeça?”

“Sim. Eu gosto de imaginar o que meus personagens imaginariam se soubessem que são fruto da minha imaginação”

“Então você acha que esse bar, eu, essa música, todas essas pessoas, estão dentro da sua cabeça?”

“Eu não sei. O que você acha?”

Ela sorriu, desdenhosa, “eu também não sei. Me belisca para eu ver,” Ao invés disso ele a beijou.

Ainda tonto, Gustavo sentiu Helena segurando sua mão e puxando-o para algum lugar. Deixou-se conduzir em silêncio. As inúmeras colunas do bar davam-lhe um aspecto de labirinto, e era difícil determinar o tamanho do ambiente. Helena andava com pressa, virando sempre à esquerda numa espiral infinita, as colunas cada vez mais próximas e o teto cada vez mais baixo. O som reverberava nos obstáculos e distorcia-se cada vez mais; já não se podia escutar os vocais, mas apenas o baixo, a bateria e um ruído indistinto em que se transformaram as guitarras. Em pouco tempo já estavam andando agachados, ela sempre na frente.

“Onde a gente tá indo, Helena?”

“Por aqui,” disse ela, indicando um buraco apertado no piso. Tiveram que soltar as mãos, mergulhando por um túnel de pedra cinza que foi lentamente perdendo a inclinação até tornar-se horizontal. Finalmente saíram em uma rua mal iluminada.

“Nossa, que…”

“Calma,” interrompeu Helena, “vou te mostrar um lugar maneiro. É logo ali, virando à direita”

Gustavo ainda a acompanhou por alguns passos, mas súbito parou. “Vai indo na frente, eu preciso…”

Não quis completar a frase. Deixou que a garota se esvaísse pelo ar gelado. Ainda podia escutar o bumbo ritmado: bam bam – pausa – bam bam… Sentiu o abraço da angústia como de uma velha amiga. No fundo, sempre soubera:

Dobrando à direita, notava-se antes de mais nada uma pitangueira, única árvore da rua, iluminada diretamente pela luz amarela do poste, que a deixava inteira marrom. O pavimento era de paralelepípedo, enquanto a calçada exibia diversas combinações de ladrilhos, desde o tradicional petit pavé, os mosaicos deformados por sucessivos reparos mal feitos, até blocos rachados de concreto. Havia carros estacionados apenas do lado direito, três, um deles abandonado, e na próxima quadra (era uma descida) podia-se ver uma aglomeração de pessoas em volta do que era provavelmente um bar.

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