Sessão de Cinema na Livraria Vertov e uns Goles de Cuba Libre

            De repente o meu coração aveludou-se e começou a pulsar o sangue subsequentemente. Aqueles olhos que me envolviam a mirada, corajosos e amenos, já haviam passado longos minutos me encontrando com tranquilidade. Eu não pude deixar de notar. Olhar nos olhos é algo tão raro de acontecer hoje em dia por essa cidade…

            Sabe, aquele calor todo me tomou de tal forma que minhas risadas tímidas e ansiosas tornaram-se uma cacofonia harmoniosa. Isso mesmo, uma cacofonia harmoniosa. Eu não vou saber explicar muito além disso, porque afinal de contas a culpa e a autopunição não me permitem ser menos branda: preciso denunciar o sentimento contraditório. E digo menos branda porque eu me puno pelo pessimismo que carrego comigo. Para mim, ser brando é isso: otimista com o que se fala. Otimista com o que se fala.

            Ser uma cacofonia harmoniosa é compreender que a vida é um grande compêndio de ruídos e que não há nada a fazer a não ser buscar o retrato harmônico desses encontros e desencontros. A vida é carregada de sincronismos e descompassos. Façamos dela então uma orquestra, senhoras e senhores! Uma grande orquestra onde Walter Smetak e Hermeto Pascoal tenham vez.

            Foi quando eu olhei nos olhos daquele homem que ele me apontou a direção. Me apontou a direção ao perguntar para onde eu estava indo. Talvez ele não tenha feito de propósito, mas foi ali que ele me mostrou a saída. O olhar corajoso e a petulância daquela pergunta me fizeram perceber uma conexão que eu já não imaginava que pudesse haver novamente. Sabe, em tempos como este, perguntar para onde se está indo é a nova forma que encontramos para pedir ao outro que fique. Ainda que ele se vá. Aquele sotaque me era familiar… De alguma forma, ser viajante faz com que eu me sinta em casa. E ele também era um viajante.

            “Tranquila, tranquila!” Disse ele, sem entoar o fonema do “u”. Foi então que percebi que não precisaria mais pegar os seus óculos e vestí-los para compreender o mundo tal qual ele compreendia. Até porque ele não vestia óculos algum. Deixa eu te contar uma coisa: eu tenho um hábito peculiar. Eu visto os óculos das pessoas para enxergar o mundo tal qual elas enxergam e geralmente tiro fotografias para ver o caimento, de como tais óculos me vestem e do que aparento ser quando eu estou com eles. Em boa parte das vezes, realizo tal feito quando me encontro com homens com quem troco de saliva. Talvez a estética minimalista de seus óculos me agrade mais, tal qual minha obstinação por me vestir a caráter masculino, ou, melhor dizendo, masculinizado. Não gosto de me sentir passiva ou submissa, tão pouco plástica e ingênua. E é isso o que eu sinto quando vejo óculos cor-de-rosa por aí.

            Pois bem, eu ainda estava um tanto sem saber para onde ir. E talvez ainda esteja. Mas tudo bem. Quando fiquei embebida de um estado contínuo de alegria é que percebi que meu coração estava vivo outra vez. Que para acalentar-me dos arranhões adquiridos por aí necessitava buscar ajuda. E isso não me torna passiva ou submissa. Tão pouco plástica e ingênua. Quando eu lhe pedir um beijo, entenda, eu fiquei muito tempo com essa vontade. E vai haver momentos em que guardarei essa vontade por anos, pois não me sinto segura para seguir tal direção.

            Talvez seja por isso que eu goste de fotografia, cinema, teatro e dança. Pois quando penso em fotografia e cinema, penso em lentes. E quando penso em teatro e dança, penso em espelhos. Todas essas são formas, não estáticas, flexíveis e inventivas de ver o mundo de dentro e de fora, de si mesmo e de outro mesmo. A física dos corpos captando nuances de cor, as luzes perimetrando cada silhueta perceptual, cada pequeno detalhe da vida acontecendo em tempo real, e quando se vê, já não há mais tempo algum: tudo é efêmero, eterno e atemporal. São elásticos que nos adornam e fazem de nós meras cordas vocais. Sim, vidros que são elásticos. A musicalidade é uma mecatrônica da subjetividade. A possibilidade de ser sujeito e objeto da própria oração está neste atônito pompoarismo esfincteriano. Prendo ou solto este punzinho que quero proclamar ao mundo?

            Essa incerteza do tempo e do espaço é mero fruto da criatividade humana, muito antes de qualquer teoria pós-moderna germinar qualquer intenção de possibilidade de surgir na história da civilização. Foi aí que me deparei com um certo estado de ressaca do marxismo. Ou, melhor dizendo, do linguajar marxista. Trabalhadores de todas as transcendências, uni-vos! Curumins Urutus, Irmãos-das-Almas, uni-vos! Nóias do mundo, uni-vos! Andarilhos e cadeirantes, uni-vos! Repetentes do academicismo, uni-vos!

            E então os seus lábios tocaram os meus. As luzes da cidade se apagaram e nossas línguas acesas se tornaram o ensaio para eu voltar a sentir o meu canal vaginal, aquele ninho quente e úmido, por onde eu saí e para onde eu voltaria um dia. A alegoria da caverna. Um verdadeiro teatro de sombras!

            De repente, percebo em tal inquietude dos entrelaçamentos corpóreos que lá fora há um mundo inteiro aguardando por mim, mas que não me espera chegar para acontecer e metamorfosear-se. Cada peculiaridade é como um voo de borboleta: tu não irás ver outra vez algo idêntico tão cedo. Sai do teu casulo, borboleta!

            Quando me apaixonei novamente pelo outro, me apaixonei novamente por mim. E assim, o ciclo se inicia…

 

Afinal, quem sou eu?

E tu, quem tu és?

Permanecemos estrábicos…

A leitura é algo complexo.

Só sei que um dia precisarei dos meus óculos…

 


Nascida no dia 11 de Setembro de 1995, Bárbara Piazza é uma estrangeira terrestre que bate as asas e levanta vôo, queima-se vez ou outra e se inunda de qualquer matéria que extrapole a força gravitacional. Diletante, militante, psicóloga e escritora nas horas vagas, acredita que só a antropofagia nos une e que um dia ela será documentarista dos instantes.
Sua geografia narrativa percorreu por lares situados em Florianópolis (ou melhor dizendo: Palhoça), Curitiba e Brasília. Dos tempos de escola ficam as saudades do teatro, da dança, das maquetes e das pinturas. Quando a geringonça trava, a mocinha se estrebucha. Corpos, vamos à luta! Não te calas, apenas te escutas!

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