Serenata dos Tempos

Segunda Crônica por Andressa Barichello

Já não sou a mesma: fui ao bar de carro. Por sorte, uma vaga. O flanelinha olhava para o fluxo enquanto chamava minha ré, confiante que o sensor de estacionamento protegeria os para-choques de qualquer desatenção sua. Os sensores de estacionamento, bem menos otimistas que o olhar humano, sempre apitam cedo demais. Aliás, é curioso como flanelinhas e motoristas, talvez os primeiros pela sobrevivência da função e os últimos para evitar a fadiga, prefiram continuar a fingir a inexistência do sensor e se comunicarem aos gritos entre pis mais ou menos frenéticos.

Posso ir? Vem! Vem! Vem!

Mas foi graças ao apito que não acertei as pernas da moça. No escuro, o escapamento a baforar no tempo. Com o carro mais para fora que para dentro e o flanelinha colhendo uns trocados mais à frente, me detive pelo que não vi – mas ouvi.

Atordoada, ela pediu desculpas, consolou o farol traseiro do carro como segurasse um seio e, para evitar outro esbarrão, voltou para a calçada. A mulher olhava para cima como acompanhasse um óvni ou caçasse uma estrela. Além de franzir as sobrancelhas, chegava a subir a mão em viseira,  pudesse o gesto aumentar sua capacidade de foco.

Bem cuidado, tia! Bem cuidado!

Agradeci e atravessei a rua para me integrar à fila do bar, paralela à dos carros. Do outro lado, oscilando entre a rua e a calçada, a mulher continuava a ser vertigem junto ao meio fio. Único corpo incapaz de se alinhar aos outros corpos, coordenados pelo segurança ou pelo flanelinha, deambulava em ziguezague. Horizonte inexistente, logo percebi que sua atenção se voltava ao prédio residencial acima do bar porque o dedo indicador contava os andares repetidas vezes, subindo sempre até o número sete.  Depois da conferência, os braços paravam moles e estendidos ao lado do corpo, enquanto a cabeça altiva e o olhar fixo davam a ideia de que um portal se abriria, prenúncio de abdução.

Tentando ver o que ela via, movi meu corpo para o lado, tendo o cuidado, é claro, de esticar uma perna para guardar meu próprio lugar. O que vi não foi nada demais. Só havia duas janelas na parte da frente e ambas estavam fechadas. Os reflexos no vidro até podiam confundir mas o blecaute não deixava dúvidas: eram quartos sem ninguém dentro ou com alguém dormindo, mas quem é que hoje se deita antes das dez?

Percebendo que as idas e vindas da mulher se tratavam de oscilar entre o canto esquerdo e a frente do edifício, concluí ser a figura de uma dessas apaixonadas à moda antiga: era o caso de passar em frente da casa do ser amado e se deter ali uns minutinhos. Restava, apenas, adivinhar o motivo. Saber se ele ou ela já estava ou não em casa àquela hora? Uma surpresa romântica? Ou, infelizmente, uma tentativa de flagrante? Não, tocaia não: ainda que o flanelinha mais à frente vestisse um colete refletor, se alguém na rua não passava despercebido esse alguém era ela.

À mesma hora em que a porta do bar se abriu e a fila começou a se mover, a mulher tirou o telefone do bolso, digitou às pressas e, como quem está numa ligação muito importante, disparou a falar. Ouvir o que ela dizia se tornou a coisa mais importante da noite. Então atravessei a rua. Enquanto fingia procurar algo dentro do carro levei o dedo à boca em pedido universal de silêncio ao flanelinha que já se aproximava tagarela.

Debaixo do ipêzinho amarelo, com uma mão ela derrubava dos cabelos as pétalas incômodas a despencar em hora inconveniente, enquanto com a outra tirava o telefone dos ouvidos para fingi-lo walk-talk. Talvez assim pudesse se fazer ouvir melhor pela pessoa do outro lado, a quem repetia em voz gritada de lágrimas:

Ele voltou pra casa! Ele voltou pra casa! Ele voltou pra casa!

Porque um pacto de silencio não pode durar para sempre, o flanelinha me deixa de lado e acorre a próxima brecha com um assobio. Os carros vindouros são sempre mais importantes que os já estacionados ou aqueles em manobra de saída. Na gestão das vagas e dos relacionamentos não há tempo a perder. Janelas abertas, luzes internas acesas e ré engatada, a nova motorista com seu batom vermelho pergunta ao sujeito:

Posso ir? Posso ir? Posso ir mais um pouco?

Enquanto me afasto e atravesso a rua para entrar no bar – razão de estar ali – a última coisa que escuto é o grito dele: Não, não pode, não! Pare já, guria! Faz 15 anos que nesse bairro ninguém tem um ai pra dizer de mim, nunca sequer um arranhão… Você, colando assim, me compromete!

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora. 

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