Sem Amor

O mais novo filme do queridinho da crítica europeia, Andrey Zvyagintsev, rendeu ao diretor mais um prêmio do júri no festival de Cannes de 2017. Sem Amor é uma obra menos politizada, mas que apresenta forte crítica social, como em Leviathan, dessa vez mais focada no individualismo e materialismo inerentes ao estilo de vida contemporâneo do que na corrupção das instituições de seu país.

Zhenia e Boris passam por um divórcio conturbado. Embora ainda vivendo sob o mesmo teto, o casal é incapaz de ter um diálogo sem acusações e ofensas mútuas. Ambos já possuem relacionamentos extraconjugais e, ao contrário do que se espera em uma família, a briga não é pela guarda de Alexey, o filho de doze anos, mas para que o outro assuma a responsabilidade. Em meio às discussões e aparente indiferença dos pais, o menino resolve fugir, forçando os cônjuges a deixar os conflitos de lado em prol do filho desaparecido.

Não há dúvidas que a obra fez por merecer os prêmios que ganhou, mas, como tudo o que envolve a Rússia, análises sob um viés pró ou anti Kremlin foram a regra. Nesse sentido, boa parte da crítica internacional retratou Sem Amor como uma obra que denuncia “o desgosto da sociedade russa com o regime” ou “o excesso de individualismo na sociedade russa contemporânea”. Qualquer um atento à atual postura ideológica do governo russo percebe, no entanto, que este filme não confronta a visão do Kremlin. Pelo contrário, ao examinar os efeitos nefastos de um individualismo excessivo –  característica normalmente associada ao capitalismo liberal –  Zvyagintsev reforça o tom alarmista adotado pelo governo de seu país. Política à parte, Zhenia e Boris poderiam ser cidadãos de praticamente qualquer lugar. A verificação compulsiva de celulares, por exemplo, dificilmente é característica exclusiva dos russos. O maltrato e abandono de um menor, fruto de um casamento infeliz, com consequências trágicas, infelizmente também não é.

Por Henrique Fanini Leite

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