Saudade Tátil

telefone

Conheciam-se há cinco meses. Trocavam mensagens o tempo todo, contavam as coisas mais banais, mandavam fotos, caretas, links para vídeos do You Tube. Também falavam da saudade que sentiam, de como o sentimento evoluíra naquelas semanas de separação, as declarações cada vez mais hiperbólicas, os corações na tela cada vez mais numerosos e, quem sabe por isso, cada vez mais banais. Inexperiente, Amélia não entendia por que as afirmações – certamente sinceras – não soavam assim. Digitava “Eu te amo!”, apertava o botão e então, angustiada, escutava a própria voz: ama? E, com uma pontada especial de agonia, não podia deixar de trocar mentalmente as exclamações por interrogações nas mensagens recebidas.

Lembrava de como admitira displicentemente não gostar de falar ao telefone. Tinha vergonha, dissera, mas não, não era exatamente isso: atender ao telefone era como mergulhar no escuro; não havia como saber quem falava do outro lado, não havia tempo de refletir sobre as respostas, não haviam silêncios charmosos, não era possível reduzir os sentimentos a simples rostinhos desenhados, não havia a doce ambiguidade das reticências… O telefone era direto, quase violento. Teria sido por isso? Seja como for, não era de surpreender que Augusto houvesse hesitado tanto antes de decidir telefonar.

O assunto finalmente surgiu num fim de tarde de Sexta Feira. Marcaram para o mesmo dia, as oito da noite. Agora, deitada na cama, o celular firme na mão direita, Amélia revisava repetidamente o que faria daqui a quinze minutos: bastava atender ao telefone e conversar, como já haviam feito pessoalmente tantas vezes. Ainda assim, sentia as gotas de suor frio escorrendo pelas axilas. Respirou sonoramente, fechou os olhos mais uma vez e começou a imaginar a voz grave e tranquila de Augusto. Lembrou do formato dos lábios, úmidos de saliva, e imaginou o ato de atender como trazer a própria boca de Augusto ao ouvido. A primeira declaração de amor foi sussurrada. Lembrou do fim de tarde ensolarado, sentados no sofá. O garoto segurava-lhe a nuca enquanto falava, a mão áspera causando arrepios com carinhos ascendentes, os dedos penetrando por baixo dos cabelos, indo e vindo lentamente. Beijaram-se, e quando abriu os olhos não havia mais apenas aqueles lábios, mas o rosto todo encarando-a. Entregou-se ao abraço e deixou que as mãos percorressem o corpo de baixo para cima, puxando-a para si. Augusto fez com que ela deitasse e, de joelhos, o sol iluminando apenas o lado direito do rosto, admirou seu corpo. Deitou-se sobre ela, as pernas enlaçadas, beijando-lhe o pescoço, as bochechas e o queixo, que mordiscava delicadamente. Amélia respirava sonoramente, fincando as unhas nas costas do garoto, tentando tirar sua camiseta sem sucesso. Ao mesmo tempo, Augusto, as duas mãos por baixo da blusa, tentava desatar o fecho do sutiã. Quando abriram os olhos, sorriram e, sem falar nada, trocaram de tarefa. Voltaram aos beijos, os quadris movendo-se instintivamente, cada vez mais apertados um contra o outro. Foi ela a primeira a desabotoar o botão da calça, mas Augusto rapidamente…

Não chegou a se dar conta dos acontecimentos. Meteu o celular entre as pernas assim que começou a vibrar, pressionando-o contra a virilha. Fantasiou aquelas memórias em detalhes, reais apenas enquanto durasse para o outro a agonia da espera.

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