Saramago e a Oliveira

Segunda Crônica por Andressa Barichello

Em frente à Casa dos Bicos na baixa de Lisboa, está a oliveira onde foram depositadas as cinzas de José Saramago.

Perto dali, ao redor do prédio da Fundação José Saramago, o mais destacado da praça, estão árvores maiores. A do nobel é modesta, pequenina. Deve haver quem à procura dela devote olhares para as outras; até, com alguma decepção, reconhecer nos galhos – e nos buracos ocos dos galhos – a árvore certa.

Gosto de passar um tempo parada diante dela, em continência. E de valer-me da conquista do polegar opositor para esfregar uma folha até macerar. Permito-me a fantasia de que talvez pelo cheiro se poderá provar a singularidade do seu ser. Do ser árvore ou do ser Saramago?

Agora ele é a árvore e a árvore é o escritor. Se bem que ela, em alguma medida, seja quem se empreste a ele. A necessidade de explicar que entre homem e oliveira não há confusão, apenas troca, faz parte dos recursos que tenho para manter a angústia à distância. A árvore é a árvore, Saramago é Saramago, e entre eles, bem, o acaso. A sorte dela – porque as oliveiras são muitas e homens como ele são poucos – em ser alimentada com o corpo dele, quero dizer, com as cinzas dele, ou melhor, com a matéria orgânica dele.

Não tenho coragem de dizer restos mortais, desvio ter havido um homem a deixar de ser árvore para ser absorvido em metáfora. A oliveira modesta, a mais modesta da rua, é onde repousa outro tipo de resto: a memória. Isso, para quem assim escolher. Há quem preferira os livros,  há quem preferira as entrevistas televisionadas…

Aprecio a contemplação das folhas a balançar no tempo, agora é inverno depois será verão, cumplicidade sem palavras, a umidade da madeira, a confiança das coisas maciças. Conformada com o modo de ser da vida e da morte, por um momento me distraio e franzo a testa para o horizonte onde brilha o Tejo. É quando um burburinho de dois pássaros minúsculos balança o galho mais alto dela. Eles gritam. Perseguem um ao outro. Revidam provocações. Depois parecem polir os bicos num caule mais resistente. Os bicos polidos em frente à Casa dos Bicos. Pousados mais à ponta, seu peso aparentemente insignificante faz do galho um colchão de molas; e algo em mim ondula nesse mesmo ritmo de travessura infantil. A concórdia possível entre eles é como a dos homens: selada pela indiferença de cada um a catar seus próprios piolhos.

Dou as costas à materialidade da árvore e das cinzas de Saramago. A alma dos corpos é qualquer coisa estranha que pousa. E voa. E já não está.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

2 Comentários

  1. Belo texto.

  2. Vanessa Brandão Maya de Omena fala: Responder

    A sensibilidade do olhar e a magia do momento. Lendo e relendo. Parabéns!

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