Salada Hipster

Segunda Crônica por Cid Brasil

O artista quando jovem tem sempre a fase São Paulo, que é um terror para os pais, os amantes e os amigos que ficam na cidade natal. Até para os artistas paulistas é complicado a chegada de um novo diletante para disputar os testes e as quitinetes da metrópole.

Às vezes essa febre passa e o artista volta, com alguma maturidade, e finalmente apresenta algo para os seus conterrâneos ou pelo menos supera os traumas familiares que o fizeram ir, o que também não deixa de ser uma conquista. Em outros casos a Pauliceia dura uma vida inteira e o artista só consegue emagrecer, adquirir tatuagens de gosto duvidoso e perder um pouco do viço da juventude. Eu me considero um sobrevivente, já que voltei de lá sem maiores traumas adquiridos em RHs ou na epiderme, embora também não possa dizer que passei incólume, pois fui para ser ator e voltei querendo ser escritor.

E se escapei de passar a vida fazendo aquelas peças que não dá nem pra divulgar no facebook, a arrogância paulista quase me fez virar vegetariano, mesmo que por um dia, mesmo tendo pais gaúchos e donos de churrascaria.

Deslumbrado com os prédios, a livraria Cultura no Conjunto Nacional, os teatros, as boutiques, o visual das pessoas e o metrô, esqueci da hora do almoço em meu primeiro dia como artista exilado e antes que pudesse desmaiar num cinema qualquer da Augusta, pensei: já que estou em outra cidade, no lugar onde melhor se come no país, vou de algo diferente. E o diferente era um restaurante vegetariano, daqueles onde o cardápio fica na entrada (de tão caros que são) num quadro negro na calçada. Só havia, como na vida, uma opção, eis outra arapuca paulistana, restaurantes de um prato só. Young Salad, que pelo que entendi na letra do cidadão, vinha com rúcula e sementes de girassol. E como sugestão, suco verde. Entrei no lugar e esperei o garçom, o som ambiente era vaporwave, o que de cara não me desagradou por ser novidade, a mescla de musiquinha de elevador mixada com toques de celular e barulhinhos de videogame depois de trinta segundos me deixou com a sensação de estar preso num filme do John Carpenter. Para o meu espanto apareceu um magrelo, de óculos de acetato e bigode com as pontas torcidas para cima, uma figura com tão pouco carisma (apesar dos esforços estéticos) que certamente seria um dos primeiros a morrer num filme de terror. Aqui tudo é diferente, pensei, até os garçons, adapte-se, Alcides, adapte-se!

Ele anotou meu pedido, mesmo havendo apenas uma opção e não explicou que eu é que teria de ir buscá-la no balcão. Demorei quase uma hora para me dar conta disso. Na verdade, aquilo não era um prato, era um desses recipientes plásticos com tampa colorida (não vou aqui fazer propaganda da tupperware), cheia de rúculas e sementes. Tudo é diferente aqui, calma, Alcides… (Talvez eu sofra de alguma síndrome de Caim, como naquele filme do Brian de Palma, mas o fato é que sempre que passo por situações embaraçosas em lugares chiques ou moderninhos ouço meu nome completo sendo dito como advertência do subconsciente, com a voz do Carlos Vereza).

No balcão ou nas mesas não havia aqueles velhos conhecidos da gente: Borges, o Minhoto… E eu, um extra-virgem naquele tipo de ambiente, julguei que a salada já vinha temperada, chacoalhei a marmita, dei um gole no suco verde e na primeira garfada, foi como mastigar uma resma de papel couché.

Eu queria tempero e não queria incomodar o garçom – na verdade, nem ele queria ser incomodado, pois sumira. Foi então que notei, duas mesas de distância de onde estava sentado, um borrifador com um líquido que para minha avó seria definido como “puxando para o verde”. Peguei a garrafa e repeti o mantra: “Aqui tudo é diferente: Vaporwave, garçons de aspecto detestável, gente de bermuda no frio, mendigo alegre… Então, porque o azeite balsâmico estaria num recipiente normal?”.

Inclinei o borrifador sobre a salada num ângulo ignorante de 90° e puxei o gatilho me sentido o Charles Bronson dos Hipsters: era como se atirasse no garçom, no preço das saladas, nos bigodes arrebitados, nos prédios, na música de elevador, nos meus cabelos que já viravam dreads com a poluição… Já estou adaptado, pensei vendo as folhas de rúcula suada, consegui temperar uma salada em São Paulo, o que esperar mais? E na primeira garfada da minha vida nova, notei o inevitável:

Era vidrex.

 Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce.

2 Comentários

  1. zeca pegadinha fala: Responder

    Meu caro Cid: que crônica leve, bem-humorada, deliciosa e muitíssimo da bem escrita. Há nela, escorrendo como o azeite extravirgem, um humor refinado e inteligente, uma autoironia sutil e persistente, que só os bípedes implumes dotados de considerável massa cinzenta são capazes de cultivar. Trate de nos “aprontar” mais escritos suculentos e nutritivos como este, que devorei entre inumeráveis folhas de rúcula suada. Os parabéns e a saudável inveja do Zeca Pegadinha.

  2. Cid e seu carinho pelas palavras ❤️

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