Roupa Úmida

A lavanderia debaixo do prédio é uma salvação para os dias de chuva. Lençóis, fronhas e toalhas são teimosos demais para secar à sombra. E quando secam forçados pelo passar dos dias que desencharcam qualquer excesso, não cheiram à coisa alguma ou cheiram mal. Mas não lavamos as coisas apenas para que fiquem limpas e não cheirem mal, não é? Queremos que os nossos tecidos exalem o perfume dos amaciantes, não importando se o ciclo foi o rápido 30´ ou se o lesco-lesco entre cuecas e calcinhas se estendeu pelas quase três horas do algodão 95°. É preciso carregar no corpo qualquer coisa de lavanda, brisa marítima, flores campestres. E tanto é verdade que compramos as palavras do rótulo que não escolho, nunca, a fragrância blue. Prefiro sempre o green energizing, os aromas da natureza que permitem sentir teu cheiro de roupa limpa, pra esquecer os meus anseios e dormir em paz; dizia assim a música do Jotaquest que eu gostava tanto quando era adolescente – nessa semana faço 30 anos e ter gostado tanto de Jotaquest um dia tem algo de incômodo, como vestir roupa úmida. O título da tal música, aliás, é Só hoje. Toda vez que desço até a lavanderia pronta para gastar algumas moedas minto para mim mesma que esse pequeno luxo acontecerá só hoje, que das próximas vezes tolerarei o varal por quantos dias sejam necessários. Quando penso no varal aberto a ocupar 50% da vasta sala desse apartamento, considero que a tal teimosia de alguns tecidos para secar em dias de chuva é apenas outra mentira que invento, porque cheiro de cachorro molhado está longe de ser aflição maior que a presença incômoda de roupas vazias de corpo penduradas pelos pregadores coloridos, estendidas todas… Ou seria rendidas todas? As roupas presas, o corpo sempre em fuga. Os dois bolsos da calça jeans quando olhados de ponta cabeça parecem uns olhos semi-cerrados e o cós, em elástico, é uma boca contida, pronta a delatar amiúde o excesso doméstico que é conviver com um estendal no meio do caminho e o vício que é, nas roupas próprias e até nas alheias, meter o nariz para ver se nelas ficou agarrado o perfume imposto, pra ver se delas se perdeu qualquer resquício de suor e a mancha do chá de hibisco, ainda que chás só finjam uma nódoa de pigmentos aguados, a intensidade pouca demais pra ousar permanência. Pareço ter perdido a sensibilidade da ponta dos dedos para sentir a umidade, levo as roupas direto às maças do rosto. Mesmo quando já secas, parecem sempre um pouco frias, e sequer com relação a elas, ainda que estivessem esturricadas pelo sol, consigo afirmar certeza . Isso de socar as peças molhadas numa sacola de feira, despejá-las sem critério e vê-las se debatendo a 80° de um lado a outro da secadora com potência e dimensões profissionais é um gesto sádico. Sento-me na poltrona bem diante da máquina, cruzo as pernas e observo o cronômetro. O cronômetro da secadora de roupas tem os números vermelhos, igualzinho ao das bombas-relógio e dos despertadores rádio-relógio que nunca mais usamos. Falta-me apenas fumar um cigarro, a revista de moda sobre os joelhos já tenho. E finjo folheá-la enquanto as roupas ardem, salpicam, voam, se embolam, se atiram, enlouquecem. Sou assídua desse estabelecimento porque preciso rever esse filme, faço questão de acompanhar minuto a minuto. Quando soam os três apitos finais abro a porta com urgência. Como quem vem de muito longe, aperto as roupas, faço dos meus braços um cesto… e sorrio. A roupa macia aquece as minhas mãos geladas, é como a pele de um amante: teimosa demais para secar à sombra e uma salvação para os dias de chuva. Queremos sempre que os nossos tecidos exalem o perfume dos amasiantes. A lavanderia, contraponto à impossibilidade de ter o corpo de um homem estendido no meio da sala mínima.

 

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

1 Comentário

  1. Adorei. Andressa é um mergulho em nós mesmos. Grato.

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