Rolê na Guanabara

praça guanabara

Em revolta contra o calor dos últimos dias, o céu de Curitiba despejou uma tempestade que ainda se faz lembrar pelos pingos grossos que gotejam das árvores da praça Guanabara. Olho para os lados e noto que estamos sós: seis jovens agrupados em torno de duas garrafas de vodka barata sobre um quadrado de concreto. Costa, esguio e barbudo, é o único sentado. Empoleirado no encosto dum dos três bancos dispostos em U, as longas costas curvadas, concentra-se em um Pink Floyd dedilhado no violão, a touca praticamente escondendo os olhos. É noite faz pouco tempo, mas as janelas escuras das casas ao redor, a serenata dos grilos e a luz esfumaçada dos postes perto da quadra de futebol de areia me fazem pensar que já não é hora de estar ali, Domingo, parado com as mãos no bolso.

“Não têm como ficar assim,” reclama Danilo, japonês de perna quebrada. Senta no assento molhado, logo em baixo do braço do violão.

“Quando melhora essa porra, Japa?” Pergunta com leve sotaque gaúcho outro alto barbado, cabelos e olhos castanhos; barba quase vermelha descolorida em volta da boca. Chama-se Santiago.

“Vou no médico próxima semana,” responde o japonês, “mas depois tem que fazer fisioterapia… não consigo nem encostar o pé no chão.”

Ouvem-se murmúrios de resignação, olha-se para baixo, um ou outro pé raspando na calçada.

“Vamos começar duma vez?” A voz de Santiago parece despertar um autômato. Os copos de plástico são distribuídos. Só há um para cada. Enquanto uns pegam o gelo, outros se servem de vodka e outros ainda misturam um energético barato. O primeiro é sempre o pior: encaro a bebida amarelo clara com desprezo antes de tomar um gole. O gosto forte de álcool reflete numa careta e um quase tremelique.

Olho para o lado e escuto uma voz grave e compassada: “Você que é o maluco que foi pra gringa, né? Deu pra fazer estrago lá?” Quem me pergunta é Gus. Também usa barba, preta como os cabelos e os olhos. Uns óculos redondos lhe dão um ar de esquerdista.

“Deu sim,” me entusiasmo um pouco demais. Penso em elaborar – narrar as paixões infantis e os sofrimentos estúpidos, mas não abro a boca: não os conheço o bastante para que haja mais que duas respostas possíveis – ou cabaço ou comedor. Qualquer vacilo na assertiva seria uma negação completa.

Ele aceita a resposta sem expressão. “Todo mundo que vai pra gringa fala que as minas são fácil demais.”

“São, velho. Elas bebem muito,” balanço a cabeça com meu melhor sorriso de quem sabe das coisas.
Ele desvia o olhar, “Mas falam que as irlandesas são meio baranga…”

“As do norte,” continuo olhando para o mesmo lugar antes de encarar o chão de concreto. “Até que eu peguei umas gatinhas lá,” pondero, a visão turva não sei bem onde.

“Isso aí! Tem que representar, mano,” um sorriso satisfeito.

Me viro para a roda. Santiago está no meio de uma história sobre uma menina chamada Lu. Os copos já estão pela metade. Ao fundo manca um mendigo.

“…aquela Lu do terceirão?” Pergunta Borges, as bochechas brancas e inchadas amarelas sob a luz do poste.
Santiago confirma, insinuando um sorriso.

“A que passou por toda a roda em Porto Seguro?”

Todos riem. “Todo mundo pegou ela?” Se espanta Danilo.

“Todo mundo, Japa,” responde Santiago. Há um instante de silêncio. “E pior que ela não foi a única.”

“Teve aquela baixinha também,” fala Costa.

“É mesmo…” Borges alonga as palavras, “alguém sabe que mina era aquela?”

“Velho, ninguém conhecia aquela mina,” Santiago ri, os olhos estreitos.

Quando param as risadas, Danilo começa: “Terceirão foi muito foda. Lembra quando a gente ia na casa do Bozo?”

Seguem histórias de sexo, drogas e rock’n roll protagonizadas por um rosário de nomes desconhecidos. Teve uma Terça em que João do Bong botou na roda um beque de meio metro. Outro dia Pedrão da vila pegou duas bissexuais gostosas num sofá do prédio do Gabu. Olho para o céu sem estrelas; meus dias sempre iguais, enquanto a vida acontecia do outro lado da janela.

“Não quer tocar aí?” Sinto um cutucão – Costa de pé ao meu lado.

Pego o violão sem saber muito bem o que fazer. Sento no mesmo banco do aleijado e viro o resto do meu copo. Peço mais um para ver se a mão para de tremer.

“Vai tocar o quê?” Pergunta o japonês.

“As de sempre,” respondo de ombros baixos, arrancando algumas risadas. Respiro fundo duas vezes e começo. As primeiras notas saem vacilantes, mas logo estico as costas e deixo a música fluir. Percebo o silêncio pelos pequenos sussurros que às vezes se sobressaem. Lamento um ou outro erro piscando os olhos embaraçados, mas continuo em ritmo firme até a música acabar.

“Da hora,” sentencia Costa.

“Curtiu? É meio blueszeira, né?”

“É. Tem uma vibe de country também, naquela parte,” começa a cantarolar e eu logo acompanho. “Isso aí!” Exclama, sorrindo.

Relaxo contra o assento molhado e tomo outro gole da bebida. Toco várias músicas, algumas conhecidas, outras nem tanto. Meu repertório impressiona, mas logo estão concentrados em outra coisa. Começo um dedilhado qualquer para poder escutar:

“…Conta aí, Borges. Não sei se três ou quatro caras invadiram…”

“Três. Foram três,” ele interrompe, “meu pai é polícia, tá ligado? Tinha uns caras que entraram lá em casa pra roubar uma vez, não sei se eles sabiam quem que ele era, se era encomendado, sei lá. Sei que na segunda meu pai tava preparado. A gente tava arrumando o carro pra passar o ano novo na praia, o porta malas aberto, cheio de mala, já. Minha mãe e minha irmã já tinham ido, só faltava nós dois. Na hora eu tava do lado de fora, atrás do carro. De repente escuto a porta da frente abrir com tudo e sai três malucos correndo e meu pai com o revólver atrás. Quando ele deu o primeiro tiro eu paralisei, não me joguei no chão nem nada. Fiquei parado. Ele deu outro tiro e acertou no peito dum dos caras, mas ele continuou correndo até a casa na curva. Daí meu pai mirou de joelhos: PAM! Acertou outro tiro no quadril e o cara caiu. Os outros dois já tavam longe e meu pai não quis ir atrás.”

“Caralho,” exclama Costa, “e daí que vocês fizeram?”

“A gente foi pra praia, porra,” Borges dá de ombros, “tava tudo arrumado, já.”

“Mas e o corpo?” Pergunta Danilo após as risadas.

“Meu pai ligou pra alguém e vieram tirar o presunto na hora,” Borges insinua um sorriso, mas logo olha para baixo, “a bad é que foi por isso que eu fui morar ali na Padre Agostinho: meu pai ficou com medo de vingança.”

Escuto um “foda…” De repente notam que parei de tocar.

“Toca aí, Borges,” Ordena Santiago. Ofereço meu lugar e o violão com alívio. Antes da próxima performance servimos mais uma rodada.

“Alguém aí já deu um tiro?” Pergunto.

Ninguém responde. Todos os rostos estão voltados em direção à quadra. É uma mulher com um casaco de camurça marrom. Está acompanhada de um homem, mas não aparentam muita intimidade. Falam diretamente em frente um ao outro. A menina é loira, a bunda apertada numa calça jeans azul clara.

São necessários vários segundos e três ou quatro olhadelas do possível namorado para Santiago intervir: “Tá, galera, melhor parar de secar o casal.”

“Lúcio tá por aí?” Pergunta Danilo.

“Tá, mas deve tar com a Ana,” Santiago tira um cigarro da carteira.

“É foda parar de fumar,” fala Costa com uma voz ansiosa, “é bom um cigarro… É ruim, mas é bom.”

“Você já fumou?” Pergunto.

“Fumei toda minha vida adulta e adolescente. Agora faz nove meses que eu parei,” os olhos ainda no cigarro.

“A gente devia todo mundo parar de fumar,” concorda Santiago, expirando fumaça, “mas agora fazendo o TCC ia ser muito burro tentar parar. Fumei a vida inteira, vou parar bem agora que eu preciso?”

A conversa morre por alguns segundos até a voz grave de Gus quebrar o silêncio: “Velho, olha o tamanho do beque que a mina tá acendendo”

Vejo uma luzinha vermelha piscar contra o fundo escuro.

“Eles devem ter saído daquele restaurante japonês,” sugere Danilo.

“É muito bom transar chapado,” concorda Costa.

Me sirvo de mais um copo de bebida. A primeira garrafa já acabou. “Mas será que tão se pegando? Eles não parecem muito com casal,” pergunto.

“Mas não é todo casal que fica sempre grudadinho,” discorda Gus, “Olha como ela tá sorrindo, olha a perna dobradinha…”

“O Lúcio e a Ana também não ficam de grude,” diz Santiago.

“Ficam sim, velho,” retruca Danilo.

“Tá, cepá eles ficam de vez em quando,” concede o Gaúcho, “mas a gente já foi pro Superagui só eu e os dois e foi muito tesão. Isso pra vocês verem como Superagui é foda, também,” ri brevemente, “A gente dormia os três na barraca e nunca deu nada,” dá a última tragada no cigarro e joga a bituca no chão, “só uma vez que eu cheguei e tava rolando. Daí parei e falei: vou ter que estender o rolê, mas foi de boa.”

“Superagui é do caralho,” diz Costa.

“É muito top,” Santiago alonga o u, “bora pra lá no ano novo?”

“Ano novo?” Pergunta Gus.

“Gus, tu não tem noção. É um lugar rootszeira no meio do mato, falta água as vezes, até. Tem gente que fala da ilha do Mel, mas Superagui é dez vezes pior. Fica todo mundo transtornado naquele lugar, uma vibe muito de boa. Sério, você tem que ir.”

“Caralho, velho. Deve ser da hora…”

“Onde vocês ficaram?” Pergunta Danilo.

“Num camping,” sorri consigo mesmo, “Uma noite tava andando por lá, descalço, dois doces na cabeça, tudo escuro pra caralho – vocês imaginam a parada. De repente piso num treco meio duro, parecia peludo. Olho pra baixo: mano, pisei na cabeça duma mina!” Em meio as exclamações, grita com voz fina: “um babaca acabou de pisar na minha cabeça!” e começa a rir. “Eu voltei correndo pra barraca mas encontrei a Ana sentada do lado de fora, assim, braços cruzados,” imita a menina emburrada, “Ela fala: teu amigo vomitou na barraca toda. Eu abri o zíper e olhei: o Lúcio tinha gorfado por tudo, velho, tava tudo fodido.”

Tomo mais um gole em meio a caralhos e puta que o parius.

“Calma, calma,” gesticula, “Não acabou ainda. Daí eu saí e fui buscar uma água pra dar uma limpada na parada, naquele escuro, tá ligado? Velho, daí tô andando meio tateando, tropeçando nos fios que amarravam as barracas, viajando que nem um puto. De repente só sinto uma coisa mais alta, tipo um degrau, só escuto um grito: puta que o pariu seu filho duma puta! Velho, pisei na a mina de novo!”

Alguns chegam a gritar em meio às gargalhadas. O casal olha assustado. Conforme volta o silêncio, surge pelas costas o som do violão. Os acordes não me são estranhos. Logo começa uma voz em falsete:

Overhead the albatross
Hangs motionless upon the air
And deep beneath the rolling waves
In labyrinths of coral caves
An echo of a distant time
Comes willowing across the sand

Me viro e vejo Borges tocando de olhos fechados. Em um instante não há mais conversa; todos acompanham a música. Tento me lembrar da letra, mas consigo apenas murmurar a melodia. Ao invés de pensamentos, uma série de sussurros indistinguíveis passeiam pela consciência. Danilo fica de pé e começa a valsar com as muletas. Santiago, Costa e Gus cantam, mãos para o céu ou contra o peito. Ao longe escuto um carro passar. É Domingo, me grita a cabeça, mas meus olhos saem do corpo e vejo tudo em perspectiva: de repente às gargalhadas, ainda com as mãos no bolso, encontra-se um garoto feliz; flutuando bêbado de calças molhadas escutando Pink Floyd na praça deserta; indo para lugar nenhum, atingindo nada que preste; então arregalam-se seus olhos e faltam-lhe palavras para expressar a verdade revelada: era ali o outro lado da janela.

Por Boris Glazunov

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