Revisão

Escreva, vai lá. Não deve ser tão difícil assim. Algo simples, divertido, fácil de entender. Compreensível. Principalmente compreensível. Não é preciso recriar o Big Bang a cada parágrafo. Quase ninguém lê hoje em dia. Tem muita série infanto-juvenil que vende pra caramba, é só entrar em qualquer livraria no shopping e ver. Brincando, cada volume tem, o quê, umas trezentas páginas? Conseguir encher cada uma dessas trezentas páginas com coisas saídas da sua própria cabeça parece um grande feito. Não deve ser, nessas livrarias tem tantos desse tipo. Preciso mandar o e-mail. A pessoa deve gostar de ficar horas e horas sentada na frente de um computador, só pode. Muita gente trabalha em escritório e também passa o dia inteiro mexendo com tela. Num dia de sol o que todo mundo quer de verdade é ir pra praia. Ah, é cada texto bacana que chega aqui. Coisa boa mesmo, com potencial. Dá vontade de recortar certos trechos de vários autores e publicar em um romance só pra não desperdiçar tudo. E pensar que aquilo não vai ser lido porque teve o azar de estar no meio de um monte de bobagem. Daqui a pouco começo o e-mail, daqui a pouco. Tem que ter jeito pra falar certas coisas. O pessoal se apega tanto à questão do estilo. Estilo existe pra ser mudado, não vejo outro motivo. Se não é o estilo, é a ideia por trás daquilo que tentam defender. Peraí, isso faz sentido, é uma lacuna interpretativa, um conceito aberto. Pode ter certeza que vai ser uma piração total criptografada. Tudo bem, pedir pra publicar é que não dá. Um pouco de foco não faz mal a ninguém. O tempo que ando gastando no celular. Gosto daqueles que sabem contar uma história boa sem enrolação. Com humor também. Quer dizer, claro que os revolucionários da literatura, os grandes mesmo, dão a cara a tapa. Esses não se preocupam em encontrar editora. Esses quase não existem. Depois que eles fazem a coisa e, de alguma forma que não entendo, aquilo se torna conhecido, não tem problema copiar. No fim das contas, o que não é cópia? Mas preciso escrever o e-mail. Se facilitassem a minha vida e não enviassem tanta coisa que não vale nada. Poesia. Encalha sempre. Hoje parei no sinal e vi algumas frases escritas em um muro, uma espécie de pichação. Não tem como ser lido se não forçar a barra. Enfiar debaixo do nariz de todo mundo. Pelo menos ninguém tem que ficar preso dentro de uma sala encarando o computador.

Só aqueles que recebem dinheiro pra decidir se um amontoado de verso livre merece ser publicado. Com dor nas costas e usando o cheque especial. Cada um enfrenta suas dificuldades. Mando mesmo o e-mail? Também, pegar congestionamento de uma hora e meia todo dia dá a oportunidade de ler muito outdoor e propaganda de cartomante por aí. Podiam mandar os rascunhos em audiobook. Se pelo menos fossem coisas simples, divertidas, fáceis de entender. Você supera a vontade de fazer uma imersão de tv a cabo, ignora o som estridente do latido do cachorro, junta forças pra não se olhar no espelho. Então começa a escrever. Ou a trabalhar. Cada um enfrenta as mesmas dificuldades. Engraçado, tantos correndo atrás de emprego. Semana passada chegaram aqui 20 currículos. Fazer o quê? Nem tudo pode ser programado. É meio assustador saber que ainda tem muita poesia sendo feita por aí. Várias camadas de significação. Também devem sentir dor nas costas, mas não dão o braço a torcer. Não enchem 300 páginas com uma história que tenha um pouco de lógica que seja. Que entretenha mesmo. Presunção, acho. É o estilo. Hoje o dia vai ser pesado. Daqui uma hora é o almoço. Meu deus, o tempo voa. Vou escrever o e-mail logo. Caro Sr. Roberto; cara vai ser é a edição dessa poesia visual. A foto de um morador de rua olhando para um cachorro, o seu cachorro, como se fosse a primeira e a última coisa que viu na vida. Escrito embaixo da imagem, mundo cão/muda o mundo/mudo/mudo/mudo. Impressão em alta qualidade. Dois livros desse tipo por ano e a gente tá falido. Só para o sobrinho do dono mesmo. Pelo menos não vai em cana por pichar tapume. Caro Sr. Roberto, ciente das dificuldades enfrentadas recentemente pela nossa empresa; dificuldades vai parecer muito pessimismo; tendo em vista o momento delicado vivido atualmente pela nossa empresa, ciente da necessidade constante que nossos colaboradores possuem; de encontrar um método eficaz para combater a dor nas costas; de se autoaperfeiçoar no cumprimento de suas atividades para que elas possam contribuir para a superação desse momento; parece que alguém morreu, mas é a recessão econômica, ele sabe disso; e que esse autoaperfeiçoamento demanda investimentos, venho comunicar-lhe o desejo de que meu período de férias, que se encontra em estado aquisitivo, seja concedido o mais breve possível. Preciso sair daqui. Se pelo menos escrevessem coisas fáceis.

Por Fernanda Ribeiro de Almeida

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