Relatos Selvagens

Relatos Selvagens está para o cinema como uma antologia está para a literatura. Uma grande antologia, diga-se de passagem. Alguns críticos chegaram a afirmar que este filme é o mais bem sucedido da história do cinema argentino. Não sem certa dose de sensacionalismo, a afirmação tem respaldo: Relatos Selvagens quebrou o recorde histórico de bilheteria em seu país natal e tornou-se um ícone cult instantâneo, com alguns de seus trechos mais marcantes incorporados nas gírias populares.

Esta obra, dirigida por Damián Szifron, traz seis histórias centradas num tema comum: a violência. Mais que o tema, aproxima-os também a abordagem. Todos os relatos começam por eventos comuns, mas degradam-se em atos de violência exagerada e cômica (para quem tiver estômago). Apesar disso, cada trecho tem identidade bem marcada, com distinções até mesmo no estilo de fotografia e trilha sonora.

São raros os filmes aclamados igualmente por crítica e público, mas esta obra faz parecer tarefa fácil. Szifron precisou apenas de um orçamento modesto, um elenco de grande qualidade e uma direção sólida, versátil e sem a grandiloquência arrogante que muitas vezes reveste os favoritos da crítica especializada (do qual o também magistral Arca Russa talvez seja o melhor exemplo). Para nós, Brasileiros, o cinema argentino oferece uma visão distinta, porém próxima de nossa realidade. Alguns dos relatos não oferecem comentário social, mas os que o fazem poderiam facilmente se passar em Curitiba, Rio ou São Paulo. Os personagens de lá são os mesmos que passeiam por nossas ruas: o rico tentando comprar a lei, o cidadão frustrado com a burocracia. A questão da violência, por sua vez, é ainda mais universal. Apesar da óbvia inverossimilhança, que justiça é ver o prédio do departamento de trânsito indo pelos ares!

Por Henrique Fanini Leite

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