refluxo de sereia.

tudo é um truque. um artifício revelado pelo tempo. não há mistérios, há camadas de tecido cobrindo tudo. posso desfazê-las? usar o livre-arbítrio das mãos e recomeçar essas costuras rasgando o pano? o que ainda permanece aqui, daquele antigo corpo, daquele antigo nome ofertado ao nascer, eu não abandono, eu abraço, como a lama abraça as partes mortas de um antigo osso para afundá-lo. não quero negar o que já vivi, só quero acessar os arquivos ocultos que me foram negados, cada documento, brinco, registro, joia, dobra, brilho, cacos e arestas proibidas, eu penduro no rosto, exponho essa face monstra à luz do dia. coloco as variedades da minha pele ao julgamento. os critérios sempre são punitivos quando se trata de domesticar as saliências. posso deixar escapar os agudos do meu grito e te encantar como sereia até que você perceba, que não, não sou mais tão humana. mutei. abandonei minhas pernas por que precisava de uma cauda. engulo o coração dos falos para encontrar uma nova fala. tudo é um truque de linguagem, o mar também ilude, o que você achava que era raso, é um buraco, o que você achava que era um buraco, é uma passagem, o que você achava que era uma passagem, é uma paisagem, vazia, assim como eu fui um dia.

Cali Ossani é uma ficção produzindo narrativas e anti-narrativas nas áreas da performance, teatro, artes visuais e escrita literária. Investiga o hibridismo das linguagens artísticas e a diluição das fronteiras nos territórios de gênero e sexualidade, sendo esta uma prática artística, política e pessoal. Formou-se em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes do Paraná e desde então aliou-se a vários coletivos artísticos da cidade de Curitiba, como a Companhia de Investigação Cênica Heliogábalus e a Coletiva Batalha Histérica de Levante. 

Atualmente, é membra fundadora e artista residente da Casa Selvática, desenvolvendo trabalhos junto a este coletivo e alguns solos. 

Arte por Nanna Ajzental

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