Reencontro

Segunda Crônica por Andressa Barichello

O expresso subiu a canaleta. Os cachorros eram felizes apesar das coleiras. Os mendigos acordavam à sombra das marquises. Na primeira hora do comércio eu já dentro da loja de roupas. Comprei duas camisetas masculinas, uma M e outra G, pensando ainda a quais dos homens da família presentearia no Natal. Haveriam de servir ao tio, ao irmão, ao primo, ao marido… A vendedora e eu abríamos as peças – e porque a diferença era apenas o comprimento, sabíamos: os corpos dos homens são assim, mais ou menos iguais.

Esperava o táxi, o sol ainda leve, o resfriado a pino… O coque improvisado, o batom meio fora da boca; mais uma dona de casa que sai às ruas do bairro para presentes de última hora.

Quando tudo parecia já pronto e bem resolvido, olhava para a faixa de pedestres que não atravessaria disfarçando a espera pelo que não vinha, o táxi. Aí apareceu você. Um homem bonito que mesmo bonito eu não veria (se não fosse diretamente abordada) porque hoje sou dessas mulheres que dobram cuecas, guardam meias, passam camisas e medem camisetas para saber se M ou G.

Pela nota média do cumprimento, disfarce ao sobressalto, era como se tivéssemos nos visto ainda ontem, magina. Você não tirou os óculos escuros. Mas eu pensei nos meus cabelos brancos. E dei graças ao blush. E pedi desculpas pela gripe; gripe em pleno verão, veja você, não dá.

Meu inconformismo, sei lá. Não era o vírus. Era a volta. A reviravolta. Você… veja, não dá! Não pode ser. Depois de tantos anos. Nessa rua onde eu…

Você ainda mora ali?

Na minha pergunta tão banal, nem eu mesma percebi

Moram a tua cama de solteiro

a tua mãe só depois das 22h

a tua cachorra e os 14 anos dela

o teu irmão vindo de São Paulo

o teu armário de metal jeito escritório

o escritório do teu primeiro emprego

a tua arma do exército fria

Eu tive medo dela

O sol das 18h, morno

quando entra pela janela do 14º

Deixa ver grãos de poeira no ar

algo poesia

Deixa ver o corpo

Amarelo, quase inocente

Refletido

Nos teus olhos verde água

Nos teus lençóis verde água

O ônibus verde bandeira

passando pela canaleta

Estreita

a tua cama

voraz, Morgana

O peso dos teus músculos

Anabolizados

Inflados meus pulmões

Mas

Para todos os efeitos

na contabilidade dos

tantos defeitos

O resfriado!

Você ainda mora ali?

Talvez seja a maneira mais adulta

– ou a última –

De não perguntar

Terá sido amor?

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora. 

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