Rastros

Devagar desceu a ladeira, com os cabelos do banho molhados, recendendo ainda o perfume que escorria de tantas ondas e em ondas roçava as espáduas, se derramava até a dança das ancas e respingava pelas pedras da rua, deixando de si um rastro úmido.

Os olhares de todas as janelas e dos bancos à beira das calçadas acompanhavam os olhos de mel e o sorriso de branco e carmim que se espalhava no ar, rubro rastro.

As formas na pele de jambo, num gingado inocente e atrevido, se insinuando sob as flores do vestido, desfilavam pela rua enfeitiçada, como um rastro de lua e de sol.

Numa esquina ainda não banhada pelo sol, dois inimigos brigavam. Da porta do bar, homens assistiam, inquietos; um ligava para a polícia.

De repente, uma arma de fogo. De onde surgira? O dedo no gatilho. Um tiro. Ninguém se fere. Alvoroço e alívio. Outro tiro. Uma bala perdida erra o alvo.

Iam passando as flores, o sol e a lua. Derrama-se o mel, respinga o sorriso, deixando de si rastro úmido, atrás de si rubro rastro…

 


Lilia Souza é professora de língua portuguesa e literatura brasileira; revisora de texto; poeta e contista. Membro de várias entidades culturais, como: Centro de Letras do Paraná, UBT – União Brasileira de Trovadores/ Seção Curitiba; Academia Feminina de Letras do Paraná; Academia Sul-Brasileira de Letras; Academia Paranaense da Poesia, que atualmente preside. Tem poemas e contos registrados em revistas e publicações conjuntas; artigos em anais de congresso. Publicou livros de poemas (Água e luz e Avesso em versos) e de ensaios de análise literária (Olhares canhestros). Coordena a Oficina Permanente de Poesia (projeto da Academia Paranaense da Poesia, em parceria com a Biblioteca Pública do Paraná).

2 Comentários

  1. Sérgio Souza fala: Responder

    Bom, hein, Lilia Souza. Gostei. Uma prosa poética.

  2. Lilia Souza fala: Responder

    Sérgio, agradeço seu comentário!
    Abraço.

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