Quem Quer Ser John Malkovitch

malkovich

Quem Quer Ser John Malkovitch é, francamente, um filme bizarro. É também o longa de estreia de dois pesos pesados da sétima arte: o diretor Spike Jonze (Her, Onde Vivem os Monstros) e o roteirista Charlie Kaufman (Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, Anomalisa). A dupla repetiria a parceria em Adaptação, um dos filmes mais metalinguísticos de todos os tempos. Como em quase todos os filmes escritos por Kaufman, Quem Quer Ser… também se utiliza de elementos fantásticos para abordar temas metafísicos. Aqui, sobretudo a questão da identidade e a tendência de idealizar a vida dos outros, um tema quase profético para um filme feito numa era pré redes sociais.

Craig Schwartz é um marionetista frustrado, tanto profissionalmente como no casamento. Incapaz de se sustentar como artista, Craig aceita um emprego em uma grande empresa, onde acaba encontrando um portal que leva diretamente à consciência do ator John Malkovitch. Qualquer um que entre no portal é capaz de vivenciar o dia a dia de Malkovitch por um certo período de tempo, exatamente como se fosse o próprio ator. Em conjunto com Maxine, sua colega de trabalho, Craig começa a vender “passeios” de quinze minutos no túnel. Aos poucos, Craig descobre como controlar Malkovitch, como o faria com uma marionete. No entanto, conforme cresce seu domínio sobre a vítima, cresce também a cobiça daqueles que conhecem seu segredo.

Praticamente todas as resenhas sobre esse filme exaltam o roteiro inovador e a originalidade dos seus aspectos visuais. No entanto, escondido sob esta comédia grotesca está um filme desolador. Nenhum dos personagens parece interessado na própria vida, ou em fazer qualquer coisa para torná-la melhor. Ao invés disso, estão prontos para abandonar suas identidades pela experiência passiva da vida de uma estrela de cinema. Mentem e destroem uns aos outros na busca por essa existência ilusória. A tragédia é que, a primeira vista, isso nos parece não só aceitável, mas natural.

Por Henrique Fanini Leite

2 Comentários

  1. é um filme delicioso. casualmente acabei de vê-lo ontem.

  2. […] já foi descrito nesse site como um dos filmes mais metalinguísticos já feitos. De fato, são poucos os filmes capazes de […]

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