Quebra-Cabeça

Faz uns dias marquei um café com Ederval. Faz uns dias comprei um quebra-cabeça de 1000 peças – depois de montado, a imagem a surgir será a de várias araras vermelhas, com sua exuberância em uma floresta que oscila entre os tons preto e verde.

O café com Ederval é hoje ao final do dia. O quebra-cabeça comecei a montar ontem, num programa familiar destinado a distração.

Não era possível acompanhar minuto a minuto, era preciso ouvir a notícia de uma só vez. Como um gole amargo. Como qualquer coisa que desce queimando. Então em vez de ler e ouvir notícias, debrucei-me ao brinquedo. Fiquei em casa, recolhida, sobre a mesa as 1000 peças espalhadas.

Foi só o tempo de separar todas elas por cores. Foi só o tempo de refletir que a única forma possível de solução era tentar definir os contornos, pelas bordas. Minto. Também deu pra montar parcialmente a cara de duas araras. As peças foram reconhecidas pelos olhos.

O Ederval. Bem, o conheci em abril. Estávamos em um restaurante quando ele chegou à mesa dos amigos. Pensei – e pensei alto – como era bonita a sua figura, a sua cara de Brasil. Meio branco, meio índio, um sorrisão aberto, simpatia e pura gentileza.

Hoje acordei sem saber se o Brasil está à altura da representação que eu faço do que somos. Hoje acordei e as peças continuavam espalhadas pela mesa, divididas, desencaixadas, um problema cuja solução não será fácil. Ontem, enquanto tentava, eu dizia: isso não é para mim. Mas enquanto dizia, tentava: enquanto há palavras, não há desistência.

Na sexta feira avisei ao Ederval que a depender de como estivesse o emocional, socorro, nem íamos. Mas foi só brincadeira. Iremos. Amanhã ele parte para Coimbra. A cara do Brasil vai embora. Mas a cara das araras começa a aparecer.

Invento metáforas de desesperança e esperança. Segundo as diretrizes europeias um puzzle com mais de 500 peças não pode ser considerados brinquedo. Fabricado no Brasil. Por exigências técnicas do panorama as peças em vez de 1000 são 1008.

Eu também sou made in Brasil, embora isso não possa ser tão identificável pela minha cara, como acontece às araras ou ao Ederval.

Mas abro a boca e todos aqui sabem. Abro a boca e não resta nenhuma dúvida.

Araras vermelhas em uma floresta em tons de preto e verde.

Ederval e eu vamos tomar café nos jardins do museu.

Ele é poeta. Eu escrevo sobre livros.

Enquanto houver palavras, haverá resistência.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

Gostou? Deixe seu comentário!