Programa de Inventivo à Leitura

Segunda Crônica por Cid Brasil

A experiência humana, além de rica em analogias ruins travestidas de filosofias é também algo doloroso e que nos põe a prova a cada instante, principalmente quando estamos sem moedas no bolso e rodeado de lançamentos literários, como foi o meu caso ontem, carregando livros e mais livros, indo e voltando até a máquina de consulta de preços na esperança de uma catalogação errada ou promoção.

Mesmo com meu olhar cabisbaixo, na espreita por uma nota perdida, notei a certa altura de minha atuação de Sísifo, um rosto celebre passeando pelas estantes. Alguém que poderia se não aliviar minha carga, pelo menos distrair alguns por ali. Tratava-se de um ex-governador do estado, que para preservar meus dentes e advogados, vamos chama-lo aqui de… Doutor Pirulito.

Pois bem, lá estava o Doutor Pirulito com as mãos nos bolsos (que segundo meu pai é atitude de quem não quer “se enroscar em nada”), camisa social folgada, calça jeans e cabeçorra grisalha, um aposentando digno e inofensivo aproveitando o tédio do domingo como qualquer mortal não tivesse sido ele já senador, deputado e governador por duas vezes de Alagoas e aguentado todo tipo de pressões, milhões e esculhambações em sua vida pública. Apesar de certamente já ter visto e feito de tudo espiava os livros de forma desanimada, como quem olhava maçãs e bananas na feira, desconfiado da higiene, dos preços e das caras apesar de meio mundo dizer que aquilo lá faz bem pra saúde.

Como eu nunca tenho nada melhor para fazer resolvi seguir os passos do ex-governador pela livraria, no começo meio de longe por temor de algum segurança ou conhecido meu aparecer e julgar-me groupie de político, embora se tal acidente ocorresse eu já tinha uma desculpa engatilhada: diria que estava trabalhando como segurança à paisana do homem e que não podia dar mais detalhes sobre a função. Para corroborar meu papel de espião paranoico fiquei folheando uma reportagem sobre o assassinato de Kennedy, vendida a irônicos e escandalosos, R$ 63.

O ex-governador demorou uns bons 20 minutos para se interessar por algo, mesmo a livraria em questão tendo um acervo decente de lançamentos, clássicos reeditados e obras de editoras novas. A certa altura de nossa perseguição Pirulito pegou uma biografia de Michel Jackson.

Fiquei desconcertado com sua escolha, pois imaginei que ele tivesse notado meus olhares inquisidores e tivesse se atracado com a primeira coisa que estava a sua frente para provar-me apenas que não era um ignorante ou um espalhador de gases, figura tão comum em ambientes assim. A ultrapassada figura de Doutor Pirulito pode ainda abrigar um punho de ferro na contenção de gastos públicos, mas passa bem longe de ser um pé de valsa, diria que o ex-governador está mais para um dos zumbis de Thriller.

Porém Pirulito, tal qual um mero (i)mortal da Academia Alagoana de Letras que é, foi direto para o caderno de fotos da obra. Deteve-se com verdadeira curiosidade na sessão destinada as plásticas feitas entre um e outro acordo judicial que o mito pop multicolorido sofreu ao longo da vida, operações dignas da melhor propaganda eleitoral que o dinheiro pode forjar, é preciso frisar.

Digo isso porque neste momento resolvi tornar mais ousada minha abordagem e me coloquei ao lado do Doutor Pirulito, mas vi que seu interesse por Michel brochou após ver a famosa foto do astro chacoalhando uma criança na sacada de um prédio, talvez a imagem tenha desanimado nosso ex-governador por lhe trazer a memória os meninos com catarro que teve de beijar em suas campanhas. Havia tomado gosto o excelentíssimo e não demorou muito para se animar e pegar outro livro, dessa vez um sobre a menina, ou o menino, dos olhos da vez das editoras ruins: Pablo Escobar.

Aqui tive que me afastar dos sapatos do ex-senador por dois motivos, o primeiro é que temi um recado enviesado de sua parte com essa escolha de apreciação; e o outro motivo foi a chegada de um garoto de oito anos – uma espécime que facilmente ganhará o apelido de ferrugem ou colorau nos colégios da vida por ser ruivo e sardento – que chamou Pirulito de avô, arrastando-o para a sessão de games (ah, essas megastores cujos livros são desculpas apenas!), tirando a atenção do politico da obra narrada por uma das amantes do narcotraficante, intitulada “Amando Pablo, Odiando Escobar”.

Também me interessam os videogames, mas aquele nosso jogo em particular estava mais divertido, principalmente porque tive a ideia de me aproximar dele e pedir, igual o menino Ferrugem, que me comprasse algo.

Não havia porque temer, eu diria que era seu eleitor, que torcia por sua volta a politica e ademais era o volume um dos diários de Ricardo Piglia o que escolhi. Quem sabe até poderia lhe emprestar depois, sabendo de seu interesse por relatos biográficos. O preço era quase de um jogo de Playstation, ou seja, uma pequena fortuna para mim, mas para um homem das multidões, descendentes de usineiros, uma ninharia…

Respirei fundo e fui até Pirulito e seu herdeiro politico, que já estavam na fila do caixa. O momento era aquele. Estava prestes a lhe cutucar quando vi nas mãos do seu neto apenas uma lapiseira em forma de globo terrestre e não o desejado game. Analisando melhor o menino para caso precisasse votar naquele sobrenome no futuro, notei entre a coleção de sardas em seu rosto infantil um olhar raivoso que nem os rivais de contendas eleitorais já haviam dado para o seu avô.

Diante da crueldade daquele velho endinheirado presenteando uma criança do século XXI com uma lapiseira, detive meu ímpeto inicial. Ao notar o afago forte, quase um cascudo na cabeça do guri, bati em retirada ainda mais frustrado com programas públicos de incentivo à leitura. Só fui me acalmar apenas quando estava bem longe dali, seguro em casa, onde pude apreciar e ler com calma o meu furto.

Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce.

1 Comentário

  1. Espalhador de gases kkk! Muito bom!!!

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