Procrastinação

Segunda Crônica por Andressa Barichello

Na fila dos poucos itens há pouca gente. Quem vai a um hipermercado dentro de um centro comercial ao meio dia de segunda-feira?

Enquanto executivos almoçam em bistrôs, estagiários cumprem filas de buffet e crianças já se apressam para vestir o uniforme da escola, minha preocupação não é forrar o estômago nem chegar pontual: o que faço é pensar em mais tarde. Mais especificamente, nas bolachas de chocolate que será bom ter comprado quando chegar a hora do café da tarde.

No exercício de viver o momento presente ainda não avancei o bastante para responder presença à emergência da hora que corre. O mais perto que posso do agora é não exceder a duração desse dia, alcançando os eventos possíveis do despertar até a noite.

Também a fila do mercado a essa hora é representativa das coisas que se limitam a ocupar um espaço de expectativas breves: atrás de mim ainda não há ninguém; à frente apenas uma senhora que não permanecerá parada sequer tempo bastante para ver piscar em vermelho o número do caixa ao qual deverá se dirigir.

Há mais operadores de caixa que clientes e por isso a fila, desejosa de se formar, não chega a ser mais que uma linha. Nesse fluxo não interrompido, pela primeira vez a ideia de uma fila de terceiro dia útil bancário me parece boa. Sem esse tipo de espera quase não há chance para repararmos o que é que vai na cesta alheia. A impossibilidade de, por uns instantes, se deter à inspeção a respeito da fome de uma qualquer pessoa desconhecida, de conjecturar de que são feitos os apetites.

 Certa vez vi o carrinho de uma adolescente abarrotado de pacotes de macarrão instantâneo. Outro dia vi um jovem depositar à esteira uma lata de atum e três pães franceses. Supus, talvez enganada, que a moça seja uma estudante e more sozinha. O miojo todo há de ser um estoque de víveres ou, quem sabe, a totalidade do cardápio de uma festa econômica. Também supus, talvez enganada, que o sujeito de chinelos a contar moedas na fila jantará pão com atum porque os tempos são difíceis e quando forem melhores haverá queijo e presunto e manteiga e outras proteínas e talvez nem haja pães, mas jantares com jeito de almoço. O almoço que eu e a senhora teríamos agora se não estivéssemos sozinhas ao mercado em pleno meio dia.

 Eu seguro um pacote de biscoitos  – um tanto perdida nos primeiros tempos em uma nova cidade, preciso fingir a normalidade de uma mínima rotina. Ela, talvez porque não precise fingir nada, carrega em sua cesta dois pacotes de fraldas geriátricas.

Nada se imiscui aos itens que uma e outra apresentarão ao caixa. Aqui bolachas, ali fraldas. Para a pergunta “é tudo?” que há de ser feita pela atendente, responderemos ambas um sim tão unívoco quanto a natureza dos itens que carregamos.

Na ausência de uma fila que nos imponha uma pausa, é preciso que encontremos qualquer coisa capaz de nos servir de entrave; então, por conta própria nos detemos diante do revisteiro. Esticamos cada qual seu braço direito em direção a agarrar um único e mesmo livro. E por ele já não há cortesia, já não há a tranquilidade dos mercados vazios. Como se reconduzidas a um lugar de espera, a urgência de que, sobre o livro, não se pode dar a vez. Sabemos, cada qual, que na fila das horas muito tempo ainda nos separa do café da tarde e da próxima troca de fraldas.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

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