Precisamos Falar Sobre o Kevin

No mundo do cinema, nem sempre é fácil identificar o que chamamos de “voz” em literatura – um conjunto de peculiaridades temáticas e estilísticas que fazem os escritos do autor imediatamente reconhecíveis. Há, no entanto, alguns diretores que evidenciam como, também na sétima arte, voz (ou seria visão?) é fundamental. Lynne Ramsay, diretora de Precisamos Falar Sobre o Kevin, é um bom exemplo.

A obra é uma adaptação do livro de mesmo nome da escritora Lionel Shriver, narrativa que utiliza um narrador não confiável para contar a história de um adolescente sociopata. O dispositivo não é dos mais fáceis de trazer para o cinema, mas Ramsey encontrou uma boa solução. A história é narrada de maneira desconjunta e não-linear, descrevendo o relacionamento problemático entre Eva e seu filho, Kevin. Desde o início, sabemos que a narrativa culminará em uma grande tragédia, mas são as circunstâncias, causas e consequências que movem nossa curiosidade.

Precisamos Falar Sobre o Kevin traz as principais marcas de estilo de Ramsay: forte uso de elementos visuais como instrumento narrativo, diálogos esparsos e trilha sonora marcante. Os closes, por exemplo, são notórios: há pelo menos três cenas idênticas de um relógio digital piscando. Os olhos de Kevin, então, aparecem em destaque pelo menos meia dúzia de vezes. Que todos estes closes tenham algum tipo de significância é testemunho do talento dos atores e da diretora. Tilda Swinton, em particular, foi muito elogiada. A atriz, com sua aparência sóbria e trejeitos duros, está perfeita no papel de mãe relutante. A insatisfação com sua realidade, escondida sob fina camada de civilidade, transpira o tempo inteiro sem nunca ser verbalizada. Se muito pode se falar sobre estilo, atuações e estrutura narrativa, Precisamos Falar Sobre o Kevin traz pouco em termos de ideias. Ramsay parece ver o cinema mais como experiência sensorial do que como espaço para debate intelectual. O resultado sai bem a seu estilo: intenso e impactante.

Por Henrique Fanini Leite

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