Porteira Aberta

porteira aberta

               A manhã nem estava montada ainda no céu, completa. Tinha uns pedacinhos dela ali, para o lado de onde ela vai se acumulando, e algum outro pedaço ainda deitado no costado do serrote que era vizinho, único vizinho próximo. Acordado àquela hora, caído tão cedo das alturas do sono, por mera tirania do hábito: coisa das auroras laboriosas. Mas agora, sentado no alpendre do oitão, tinha desistido. Desistido completamente, entregava seu destino na mão áspera do acaso.

            Desde ontem, ainda em sol alto, havia aberto todos os colchetes da pequena propriedade encravada no umbigo do Seridó potiguar, esperava, queria muito que as três vacas, as únicas três que tinha, ganhassem o mundo, que procurassem sozinhas e por suas próprias patas seu destino, seja qual fosse. Não tinha mais forças, nem mantimentos, e nem principalmente vontade, para debater-se contra os espinhos da secura, da aridez insensata daquelas paragens. Mas elas, as três, se puseram estáticas no curral mal-em-pé, não esboçaram nenhuma ânsia por liberdade, pelo contrário, olhavam-no suplicantes com seus olhos boiando na face comprida e magra, como que perguntando se ele as deixaria morrer ali, naquelas condições, se ele não se importava com aqueles corpos ossudos e desengonçados, agora fracos e cambaleantes, hein!?, iria!?, como poderia um ser tão mal-agradecido!? e todo o leite de anos?!, como pode?!, e ele não tinha as respostas, afinal deixava-se morrer também, ao menos um pouco, naquela manhãzinha.

            De vê-las estáticas, imaginou que as vacas tinham criado raízes ali, perto do cocho, de onde o olhavam, feito estaca verde em cerca de pau, que vira planta de novo. Era ideia antiga, a das raízes, de ainda menino, tida numa chuvarada brava, boa de lembrar, com cheiro de molhado. Havia sido a noite inteira em vigília escutando a tormenta jogar-se violenta sobre sua casa de pau-a-pique, que para ter aguentado a incursão da chuva daquele jeito só podia ter raízes se agarrando no chão, imaginou no durante, pois senão, era para ter sido arrancada e Deus sabe onde iriam parar. Mas resistiu, perdurou, graças às raízes. Depois de cessada a chuva, nessa mesma fresta da manhã em que ele estava agora, seu pai o levou pelo braço para que o ajudasse a repor nas paredes do casebre o barro que tinha derretido durante a aguada da noite, tratar as feridas da batalha. Era trabalho bom de ter: o velho, depois da noite de olhos arregalados, sabia daquilo como problema menor, é que no barreiro haveria de ter água para alguns meses. Pegavam a lama no chão faziam uma bola e jogavam com toda força nas paredes de vara. E de novo, e de novo. E para se rirem, às vezes acertavam um ao outro com bolas menores da lama.

            Mas naquele instante o cheiro de molhado era apenas lembrança, e rarefeita. Os arredores do sítio – do mesmo sítio – se esturricaram completamente, o barreiro era agora uma mera cicatriz inscrita em pó ocre e pedras arredondadas. A caatinga era de esculturas de cinzas.

            Aprendera nos liceus da seca, dos do abandono que quando o formigueiro bota o bagaço para fora da toca, pode preparar as covas e jogar o catador que tem inverno a caminho. E era como estava o formigueiro, há três dormidas. Até o juazeiro – tinha um juazeiro no pezinho do serrote seu vizinho – até o juazeiro se assanhou a querer cuspir juá e todo mundo sabe, está escrito na voz de todo mundo, que juá só cai na lama. Juá só cai na lama e para fabricar lama só com água. Muita. Pois então o inverno estava encomendado: naquele ano não ia ter erro, choveria. Pegou enxada e preparou a terra, até para fora de sua propriedade, um chão assim sem dono certo, que era de todo mundo. Se houvesse alma viva naqueles ermos diriam, todas, ser trabalho desperdiçado, preparar chão tão somente para o sol calcinar melhor. Mas havia só ele ali, e só ele sabia das confidências das formigas, só ele sabia das intensões fogosas do juazeiro.

            Mas ontem algo grave sucedeu-se a aquele rebuliço de boa-venturança:  reparou numa casa de jandaíras que há poucos dias cheia, restava abandonada. E de repente o desespero tomou conta. Abelhas ingratas! Retirar assim, de uma hora para outra, o inverno que se ia chegando. Como se acham com direitos de irem rasurando a escritura de um inverno vigoroso, escrito no bagaço do formigueiro e reiterado pelos juás? E onde poderiam cair os juás, se só caem na lama?

            As pernas então fraquejaram ante o prenúncio do prolongamento da sequidão, arriou-se sobre seus joelhos. A vista escureceu. A ideia de outro ano seco, a ideia das abelhas levando o inverno, era pesada em demasia. E caiu despertencido de si. Permaneceu algumas horas sob o sol seridoense, brilhando de suor a pele negra tingida pela enxada. Quando retomou a consciência, deu os primeiros passos ainda tonto, alinhou-se, alcançou o pequeno alpendre enviesado, encostou-se no pilar de pau torcido, tomou ar, profundamente, foi ao colchete na direção do serrote, abriu, ao outro mas para baixo do terreno, abriu também, voltou até o curral e abriu a porteira. Entrou na casa, sentou no chão batido da sala, encostado na parede e adormeceu como quem quisesse morrer.

            Acordou antes de o sol se abrir, atravessou a casa, saiu pela porta da cozinha, sentou-se no chão do alpendre de trás, o que dá para o oitão. O frio possuiu-se de seus ossos, ele abraçava os próprios joelhos enquanto divisava as vacas e o chão, as vacas e o chão. Não tinha se permitido perceber o mundo em volta, sabia da imutabilidade sertaneja. Até escutar o primeiro trovão.

Por Luiz Renato Dantas de Almeida

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