POETA DA REVOLUÇÃO

 

Em 19 de julho de 1893, há 124 anos, nascia Vladmir Maiakovski, mais um canceriano sem lar. Nesta poesia, ele fala do ofício e da função do poeta. Vale, e muito, para hoje e sempre.

 

CONVERSA SOBRE POESIA COM O INSPETOR DE IMPOSTOS DA LITERATURA

 

– Cidadão inspetor!

Desculpe o incômodo.

Obrigado…

Não se preocupe…

Ficarei de pé.

Tenho um assunto a lhe falar bastante delicado.

Trata-se do lugar que devem ocupar os poetas nas fileiras operárias.

Entre os que gozam de direitos e deveres

estou eu, também multado por impostos.

O sr. me exige 500 rublos por semestre

e mais 25 por não ter feito declaração no prazo.

Meu trabalho é semelhante a qualquer outro.

Observe o sr. quantas perdas ocasiona,

quantas reservas e quantos gastos exige o meu material.

O sr. naturalmente conhece esse fenômeno que se chama “rima”.

Quer dizer,

se a linha termina com a palavra “sombra”

o sr. encontrará por perto a palavra “alfombra”.

No seu entender a rima é um cheque.

É preciso sacá-lo a todo custo.

Busca-se o detalhe de sufixos e prefixos,

no cofre vazio das declinações ou conjunções.

Toma-se esta palavra,

tenta-se metê-la na estrofe, mas ela não entra.

Aperta-se e ela se parte.

Cidadão inspetor,

palavra de honra, ao poeta acodem palavras de dez centavos.

Falando a meu modo, dir-lhe-ei:

A rima é um barril, um barril com dinamite.

A estrofe é a mecha.

Acesa a estrofe, explode…e voa a estrofe pelos ares da cidade.

Onde se encontram e a que tarifa

rimas que apontem e de um golpe matem?

Talvez sejam cinco as rimas mais raras

e talvez andem perdidas para lá da Venezuela.

Sinto calor, calafrios, só de pensa-lo.

Atrapalhado por dívidas e empréstimos

lhe digo:

Cidadão,

leve em conta as despesas de viagem.

Toda poesia é uma viagem ao desconhecido.

A poesia é como a extração do rádio.

Um ano de trabalho pra conseguir uma grama.

Extrair uma só palavra de rádio dentre mil toneladas

de palavras de matéria prima.

Mas estas palavras ardentes são como cinzas quentes

perto do fumegar da palavra bruta.

Estas palavras põem em movimento

milhares de anos e milhões de corações.

Naturalmente é diferente a qualidade dos poetas.

Quantos deles tem a mão longa.

Como um mágico soltam estrofes pela boca,

tirando-as dos demais.

E o que dizer dos líricos castrados?

Filam uma estrofe alheia e ficam contentes.

Isso é um simples roubo ou esbanjamento

no esbanjamento e na dissipação abundantes em nosso país.

Esses versos e odes aplaudidos e discutidos

entrarão na história como gastos suplementares

de dois ou três versos bons.

Como se diz, dezenas de quilos de sal deverás comer,

centenas de cigarros deverás fumar,

antes de extraíres a palavra valiosa,

das funduras artesianas da alma humana.

E serão menores os impostos.

Tire-se uma roda de zeros.

Um rublo e noventa custam os cem cigarros.

Um rublo e sessenta custa o sal fino.

Em seu questionário há muitas perguntas.

– Fez viagens ou não?

E se lhe respondo que nestes quinze anos

tenho viajado como centenas de Pégasos?

Coloque-se o sr. no meu lugar.

E se eu lhe disser que um condutor do povo

e que, por minha vez, trabalho para serví-lo?

A classe operária vibra em nossas palavras

e somos nós motores proletários da pena.

A máquina da alma gasta-se com os anos.

E então dizem: para o arquivo! Acabou-se, já é tempo!

Ama-se menos, a gente atreve-se menos,

e minha cabeça, com o tempo, já não baterá pelas paredes.

Vem então a mais terrível das amortizações,

a amortização da alma e do coração.

E quando o sol, engrandecido e taurino,

Se levantar num porvir sem aleijados nem mendigos,

eu já estarei podre, morto sob uma taipa

com dezenas de meus colegas.

Afirmo e sei que não minto:

como um marco, entre os gozadores e fuleiros atuais,

estarei só, com uma dívida infinita.

Nossa dívida é uivar como sirene de bronze

entre a névoa pequeno-burguesa e no fervedouro da tormenta.

O poeta é sempre devedor do universo

e paga com sofrimentos as multas e os impostos.

Eu contraí dívidas com as ruas da Broadway,

com os céus de Bagdad, com o Exército Vermelho,

com os jardins de cerejeiras do Japão,

com tudo aquilo que não pude cantar.

A palavra do poeta é vossa ressurreição.

Vossa imortalidade, cidadão inspetor.

Ao cabo de cem anos, dentre maços de papéis,

destacarei uma estrofe e farei rememorar esse tempo.

E esse dia levantará com brilhos de milagre

e o cheiro da tinta exalada o envolverá, senhor inspetor.

Mande o habitante de hoje

comprar um bilhete para a imortalidade

e, calculando o efeito dos versos,

seja meu salário dividido por trezentos anos.

Mas a força do poeta não reside

em que do sr. mal ou bem se recordem, no futuro.

Não! Hoje, a rima do poeta é carícia

palavra de ordem, látego e baioneta.

Cidadão inspetor,

pagarei os cinco e todos os zeros que vêm depois.

Eu, na verdade, quero apenas um lugar,

na terra dos operários e camponeses.

Mas se o sr. pensa que tudo consiste

em saber utilizar palavras alheias,

então, camarada,

aqui está minha caneta-tinteiro,

pode escrever sozinho!

 

Mariana B. Cavariani

1 Comentário

  1. Miguel fala: Responder

    Que belo poema!

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