Play – Pause

Segunda Crônica por Andressa Barichello

Aos nove anos ganhei da minha avó um rádio de fita. Desde os cinco anos esperava ter o objeto ao alcance das mãos, sob a promessa de que ainda era cedo e que a vontade de antecipação poderia virar estrago. Quem define a hora certa das coisas? Como pode ser que em querendo tanto algo seja possível quebrá-lo?

Não tivesse percebido o zelo da avó com o espanador e talvez nem interessasse tanto agarrar as alças e levar aquilo pra qualquer canto meu. Tão estranhas as fitas redondas dentro do quadrado plástico, presas e girando. Mesmo quando não havia nem música nem voz, o som. O barulho do nada, diferente do som do silêncio. Com alguma vaidade penso agora que é desde menina que entendo o fascínio de Hilda Hilst com seus gravadores espalhados na Casa do Sol à espera de captar sons do além capazes, só eles, de romper o barulho do nada.

Com a moda dos CD´s, gravar as músicas do rádio era ir na contramão.  Com os adultos às voltas com tantos assuntos, como propor um cantar todos juntos? Um aparelho que só funciona se ligado na tomada impede sair para gravar o dia do mundo. E os passarinhos, afinal, cantam sempre tão longe.

Primeiro fingi uma comunicação entre planetas. Gravando. Gravando. Desligo. Mas tão pouco a dizer para a Lua. Um dia tentei falar com Marte. Gravando. Câmbio. Desligo. Há uma fase na infância – talvez aquela em que se torna impossível acreditar em Papai Noel – capaz de inviabilizar diálogos com habitantes de planetas não habitados, uma fase na qual nos agarramos à razão até que tenhamos forças para romper com ela e criar nossas próprias metáforas.

Já quase pensava em abandonar o amor antigo quando percebi: a falta de graça não era culpa do presente, mas do cansaço quanto aos monólogos. A fita lá dentro querendo girar. Fragilzinha, talvez pudesse ficar embolada de tanto ser interrompida pelo botão laranja, como acontecia quando os meus dedos se metiam nos buraquinhos e giravam fora da medida. Para ser bom era preciso deixar rolar; mas como? O gravador tão difícil de manusear quanto seriam outros corpos, um dia.

Num final de tarde sem imaginação, me recolhi junto à mãe que tinha a televisão ligada. Sentada ao chão da sala tendo o rádio desligado como companhia de estimação, os olhos vidrados na tela: um homem com roupas coloridas respondia às perguntas de outro. No dia seguinte, a mesma cena. Dessa vez, quem respondia às perguntas era um padre. No terceiro dia, depois de ouvir o médico e a bailaria, entendi que para ser feliz com o que era meu, talvez precisasse da presença de um terceiro. Talvez precisasse renunciar à inteireza de uma certa posição.

Desde que aprendi a ser entrevistadora e entrevistada, a perguntar e responder às minhas próprias perguntas e alternar minha voz de acordo com o que pedia o momento, entendi que somos divisão, e a possibilidade da vida é o que acontece entre o questionamento e a afirmação. 

Foi a partir das brincadeiras com o rádio que me afastei a cada dia do meu ser criança; numa passagem lúdica para o lado de cá. Mas sei que em alguma banda sonora, pra além de Marte, longe das avós e mães e mesmo depois de extintos todos os gravadores, ficam gravados para sempre os ecos dos ensaios-de-responder infantis. É a palavra da escritora, só ela, capaz de romper com o barulho do nada.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

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