Panela de Arroz

Eu não suporto o barulho da centrífuga de roupas. Ela parece uma turbina de avião. Turbina que, eu sei,  é uma fracassada que não levanta vôo para lugar nenhum. Tive de fazer o almoço enquanto lavava as roupas, para não ser escrava da cozinha onde fogão, pia e turbina idiota dividem espaço. E a hora da turbina coincidiu com a hora do arroz. Mas se o segredo do arroz bom e soltinho é deixa-lo cozinhar com tampa entreaberta sem relar a colher, por que não dar-me ao luxo do sofá enquanto o fogo sozinho tratasse de fazer a água toda evaporar? Ah, a ilusão das coisas a se fazer por elas mesmas enquanto, a nós, o repouso.
Porta fechada, a paz ridícula de uma máquina de lavar isolada, paz possível nesses tempos impiedosos que nos engolem feito turbinas engolem passarinhos metidos a voar ao lado de aviões; ah, em meio à minha paz ridícula e possível, eu me distrai. O preço da distração anda mais caro que o da maldade. Por cinco, dez, quinze, vinte, trinta minutos. Eu me distrai por meia hora, meu Deus! Meia hora de sofá na minha paz ridícula rindo da ridicularidade alheia, no Facebook de todos nós, eu, engolida, como por uma turbina, pelo universo de memes, textões, e epifanias alheias. E de repente: hum que cheiro de queimado!, como se o fogo e o esquecimento e o erro não fossem comigo. É sempre outro o responsável pelos atrasos, pelas chamas, pelas coisas todas, tão boas, tão deliciosas, transformadas em carvão. A fumaça subindo debaixo da porta, como que fantasma, a me procurar na sala. É o meu arroz! É o meu arroz! É o meu arroz! gritei e corri, como se houvesse alguém, além de mim mesma, a quem contar que a coisa a queimar a feder a incendiar a se perder, era minha! Uma náusea, uma tristeza, um medo do arroz tostado, da panela, coitada, que segurou tudo sem ter culpa de nada. Será possível salvá-la? Voltar a vê-la prateada? Só me importava a panela. Raspei com a colher, sem conseguir encontrar o fundo. Tudo chamuscado. Camadas e mais camadas de grude, de excesso, de esquecimento. Depois, o arroz no lixo derretendo o saco, o cheiro do plástico queimado, a fumaça ganhando a casa inteira porque de novo eu me distraí e não fechei a porta para conter o avanço. Ah, a vingança dos remendos!  E agora o sofá, o varal de roupas, os lençóis, o dentro dos armários da cozinha, tudo, já depois de horas do incidente, tudo cheira arroz queimado. E arroz queimado, eu não sabia, é um horror. Porque não vale os direitos do pneu queimado, as intenções da parafina queimada, as alegrias dos fogos queimados, a luxúria da linguiça queimada, a liberdade dos papéis queimados. Vou para o banho, esfrego o cabelo, os braços, a cara. E as lágrimas caem duras, como houvesse dentro de mim um saco rasgado de arroz cru.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

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