Pá com Frango

pá, ela atirou no peito de H. mas quando o corpo dele caiu, puta merda, acertou no vaso atrás e quebrou o presente que mamma trouxe da Índia. pá, ela nem olhou na hora do disparo, estavam longe, a fazenda Boa Esperança fedendo a estrume de cavalo, um silêncio medonho, ninguém no raio de dez quilômetros. só ela, uma égua e o misógino do H, aquele canalha, morreu tarde, escrevinhador de trabalhos para estudantes de medicina da veiga de almeida, cheio de escrúpulos e sem moral nenhuma. pá, ela gozou pela primeira vez em dez anos quando viu o olho dele virar, as pernas contorcendo. pá, ela pegou aquela edição da ilustrada de noventa e três. ele guardava aquele pedaço amarelado de papel como se fosse de ouro. o poema bosta dele com uma ilustração foda. rasgou e jogou por cima do corpo. pá, olhou no espelho, tava toda fodida de hematomas no braço e na perna, um roxo que atravessava o lado esquerdo do rosto. pá, lembrou do casório, dia escolhido pra ser infeliz para sempre com H.. feliz de repente porque aquele para sempre tinha finalmente acabado, repita-se, tinha finalmente acabado. Não vou sofrer mais seu babaca, nunca mais serei como um saco de feira com limões apodrecidos guardados na gaveta da geladeira. pá, nunca mais deixarei a depilação por fazer e a unha sem esmalte e a boca sem batom porque mulher que é mulher precisa ser discreta. fazia tempo que a cabeça não andava boa: um dia deixou de passar desodorante, no outro parou de escovar os dentes, no dia anterior havia esquecido o endereço da filha. pá, ela foi até a cozinha rechear o frango que já tinha depenado. abriu embaixo, limpou bem por dentro e por fora, deitou o recheio feito de manteiga, cebola, salsa, manjerona, sal, alho, pimenta e azeitona. pá, depois de pronto, comeu com farofa e foi dormir na rede. pá, fazia calor naquela tarde de domingo.


Juba Maria é mãe, professora e jornalista. Trabalha como analista de comunicação na Infraero e é mediadora do projeto Leia Mulheres em Uberaba (MG). Escreve poemas e textos curtos sobre violência contra a mulher e é também uma das coordenadoras do projeto AMAI, que presta apoio a mulheres em situação de violência no relacionamento afetivo. Dá palestras sobre Comunicação Não-Violenta e utiliza sua experiência pessoal para aprimorar técnicas de prevenção à violência, resolução de conflitos e promoção da paz

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