Outras Marcas Em Nossa Literatura (Seguindo Os Passos Da Ema)

Com a publicação de nossa mais nova edição, resolvemos resgatar um pouco de nossas origens. Este texto, que serviu de prefácio para a edição número zero, resume bem a nossa proposta. Emas do mundo, onívoros!


Ema é um animal parecido com o avestruz, todo mundo sabe disso — é o óbvio com fritas. No entanto, a ema difere muito do avestruz em peso, altura e outras balelas que aqui não importam. E nem comparar a ema ao avestruz importa neste texto. Na verdade, só queria tecer uma analogia entre esse novo projeto literário, que ora se apresenta, ao fato de o avestruz, e talvez a ema, meter a cabeça dentro dum buraco na terra quando está com medo. Dizem que isso é mito, não sei, não busquei no Google. Mito ou não, vou ficar com a ficção – a de que o avestruz enterraria sua cabeça por medo e que a ema também o faria por semelhança de aspectos físicos e psíquicos. A ciência bem poderia nos explicar esse fato, o de enterrar a cabeça; pois a ciência, oh deus!, sempre explica. Mas aqui a coisa é outra. EMA, com maiúsculas, é uma sigla (muito secreta até esse momento) que quer dizer Escritores Muito Anônimos. Sim, essas novas aves literárias tiraram a cabeça de um buraco cavado na terra e mostraram a cara. Meteram o bico. Fugiram ao anonimato (ou ao menos estão tentando, como toda ave que escreve). Criaram coragem de desafiar o restrito universo literário bancando uma publicação, uma revista. E revistas literárias, assim como as emas, podem ser criadas em qualquer lugar deste país, e o são, mas o Paraná e pródigo em revistas desde a Joaquim, do Dalton, nascida em 1948, passando por Medusa, Coyote, Oroboro, Jandique, entre tantos outros veículos de literatura, até chegarmos a atual revista EMA (e então o lastro cultural ganha mais volume).

 Não se sabe, não sei, pois não perguntei ao grupo de escritores, se o veículo literário vai além do número zero. Porém, essa é outra questão que também não importa aqui. Importa, isso sim, entre outros detalhes, que a EMA traz um manifesto, na verdade um anti-manifesto, em que se demonstra a consciência de que escrever é sempre mais importante do que atingir o reconhecimento de nossos três mil leitores de literatura neste país. Existe até um conselho aos iniciantes que procuram por essas, esses Emas: “pare de escrever, se espera por reconhecimento instantâneo”.

Apesar disso, não dá pra se esconder, e também não dá pra ter enormes expectativas ao se escrever literatura, escreve-se porque se tem algo a dizer, quando não se tem, não se escreve e ponto. Mas o lance da EMA, o seu negócio, é enfiar a cara no cenário, ou melhor, tirar a cabeça do buraco e criar estratégias de divulgação de seus textos, alçar voo mesmo com todo o peso de uma ave de grande porte, tornar o voo possível porque na ficção emas podem voar.

Essa moçada-ema, vide manifesto(anti), deglute, pelo visto, de tudo, tenta se nutrir de boa literatura antes de se aventurar a escrever. Seriam descendentes da Antropofagia como aponta o manifesto? Bem, um escritor se faz mais de leituras do que de escrita, mais de referências do que conferências, mais de experiências do que simplesmente excrecências (soltar o verbo na página sem pensar o que possa ser minimamente literatura). E eles, elas — essas emas — sabem disso. Os conheci em oficinas de criação literária. Os vi, hoje mais maduros, deglutindo de tudo mesmo. Tudo o que se oferecia a elas, eles, era motivo de encher o bucho. Herta Müller, Aglaja Veteranyi, Manoel Carlos Karam, Valêncio Xavier, Atiq Rahimi, Juan Rulfo, Dostoiévski etc. E eu conferi isso pessoalmente, ok? E digo, com certeza, que cada um desses, dessas emas aproveitou as propriedades nutritivas que lhe eram mais interessantes, e o resultado foi a formação desse grupo de jovens escribas que se decidiu pela auto publicação. E eles, com isso, parecem desejar, reivindicar uma cena nova e renovada em linguagem e atitude. Creio, no entanto (e é preciso fazer a ressalva), que a formação de uma cena e uma vida literária (e muitas vezes já me perguntaram sobre isso) não se faz apenas de publicações, editoras, veículos especializados etc. Se faz primeiramente de discussões, de embates, de polêmicas e provocações, de diálogos produtivos, claro, e também de abertura e generosidade para com os nossos pares, coisa rara neste campo. A cena acontece nos encontros e não apenas nas redes sociais, não apenas a partir de convites virtuais de novos lançamentos em que comparecem apenas os amigos do autor ou autores. Uma cena é maior que isso. Ela reúne pessoas diversas, não no mesmo espaço necessariamente (por vezes, justapostas), e mostra seus produtos, sua variedade intelectual e, sobretudo, seus dissensos; aí sim temos algo com sustância, que é a tal da cena. E a essência disso reside também em tentar, não necessariamente sobreviver. Reside em marcar uma época. Forjar nossos passos mesmo que esses possam parecer curtos. Não importa. Tentar avançar é o que vale. Em resumo: não tem cena sem o encontro, a conversa, a troca, a diatribe, o repto.

 Ações não dialogadas não resolvem.

Falo isso, porque sei que esses, essas emas se reúnem desde um tempo já, escrevendo, discutindo seus textos, criticando esses mesmos textos (espero), comparando e até mesmo ironizando uns aos outros, sacaneando (no bom sentido) outros grupos e projetos, outros escritores, pois isso também faz parte — a convivência pode ser pacífica, mas não pode ser isenta de ironia e combatividade. Isso, sempre. Chega de consenso. O nosso consenso medíocre é o que nos assassina diariamente no campo da cultura.

E vejam só, eles, elas (EMAS) fizeram isso em Curitiba. Terra em que escritores surgem e desaparecem num piscar de olhos — ou cuidam de “desaparecer com eles”, como já apontou Jamil Snege, o mais completo escritor já nascido por estas plagas de araucaria angustifolia; ter talento por aqui significa que uma hora te colocam na bruma, no ostracismo, te anulam. Essa coisa de literatura parece ser pra uns poucos, os alfas dominantes, que no entanto não “nos representam a todos”. Essas jovens Emas parecem mais ligadas, mesmo, a caras como Jamil, Valêncio, Karam, Wilson Bueno, Regina Benitez (mesmo que indiretamente) — digo isso mais no sentido da atitude. Esses caras aí, da velha guarda insurgente, pouco se lixavam para o reconhecimento de editoras e das “sumidades” locais. Ninguém precisou avalizar a competência deles, a não ser eles mesmos. E o que essas, esses emas fazem é isso — estão se lixando para o que a “recepção” vai dizer, não precisam agradar pra ser aceitos. Chega de carências literárias.

Na experiência de trabalhar em oficinas de criação com esse bando de aves escritoras, pude perceber que elas não querem o mais do mesmo, não querem se comprometer com a caretice broxante. Não querem aprovação; nem a minha, na verdade. Eles sabem que não precisam. Eu sei que eles não precisam.

E outra coisa, pra aquecer ainda mais o debate: começa que essa coisa de EMA não é o retrato de Curitiba apenas (e retratar Curitiba parece ter virado obrigação para os escritores locais; nada contra, mas fugir disso também vale a pena). A revista é iniciada, não por acaso, creio eu, com um texto contundente da alagoana-paranaense Natasha Tinet, um conto ágil, cortante, que (aí o talento, a técnica e a linguagem se fundem) desnuda a já tão presente, em nossas letras contemporâneas, solidão urbana, só que no espaço de uma ensolarada Maceio, o que cria uma atmosfera ainda mais triste para os grandes centros; mas o principal mesmo deste conto reside na capacidade de Natasha em conseguir, em três parágrafos, em poucas linhas, mergulhar com boa dose de profundidade em questões de caráter existencial, em dramas familiares sem nada daquele papo chato de auto vitimização — esse conto é feito de uma mordacidade atroz. Agride. E agredir o leitor é o melhor modo de cativá-lo, não há indulgência em literatura.

Marcos Nazario, outro nome desta publicação, nos apresenta “Situações inacabadas”, um texto curto em quatro partes que se passa num local em comum para os personagens, um local que se desloca no tempo-espaço — o ônibus. Três personagens, que desconhecem, ali tão próximos (lembrando o procedimento adotado por Tolstoi em “Três mortes”), as realidades de cada um e que durante a viagem navegam pela incerteza sobre o que encontrarão ao chegarem, ou retornarem, a uma pequena cidade no fim do mundo. Como o título sugere, nada se encerra neste conto, que apresenta em sua última e quarta parte uma estratégia narrativa desconcertante. Já Oksana Guerra nos surge com a densa representação de uma mulher em sua existência claustrofóbica, marcada pelo sofrimento, pela opressão e pelo delírio, que leva o conto às profundidades do inusitado, provocando síncopes na realidade, confundindo todo o tempo o leitor, sacudindo seu entendimento que precisa saltar a todo instante de um lugar a outro no tempo-espaço, partindo dos limites de quatro paredes. Oksana traz uma sensibilidade rara, uma escrita refinada, uma linguagem apurada; e sua personagem soa a uma herdeira genuína de Maura Lopes Cançado em “O Hospício é Deus”.

Mas não pensem que o humor não faz parte da EMA, por que Guylherme Custódio constrói em sua narrativa, de um modo por vezes hilário, beirando o ridículo, uma conversa entre uma garota e um rapaz (ou um homem e uma mulher) marcada pelo espontâneo. Espontaneidade que, ao enveredar por pequenos dramas, torna-se piada. Mas no conto de Guylherme a fala espontânea torna-se também ponte, criação de elo entre a palavra de um e de outro, entre a vida de um e a vida de outro. Esses dois personagens aos poucos se conhecem mais e de algum modo se entendem, de algum modo quebram a afecção da incomunicabilidade que tanto marca o nosso tempo e a nossa literatura.

Cid Brasil, em “Eu deveria escrever sobre outra coisa”, realmente não escreve em específico sobre alguma coisa, trata de várias situações em cinco fragmentos, situações de vida de artistas famosos, mas o “deveria escrever sobre outra coisa” nos dá alguma coisa, basta ler com atenção esse conto, em que Cid trava uma batalha contra a necessidade de um enredo, de um mapa bem traçado para o desenvolvimento de uma narrativa. O naufrágio dos seres contemporâneos e o não saber para onde ir, o estar sem âncoras, sem porto de partida ou chegada parece a inexorável condição do homem contemporâneo, que de algum modo está presente na narrativa de Cid, pois as narrativas dessas contemporâneas EMAS também é isso — traz a incerteza, a falta de referências, a ausência de relações estáveis, e o mundo inteiro não apenas gira, mas balança e tenta nos lançar fora dele o tempo todo. E textos como o de Nanna Ajzental são a metáfora contundente do quanto estamos entregues às rotatividades nas relações humanas, às instabilidades de todas as ordens, aos jogos eróticos esvaziados pelas relações superficiais, relações (ainda) de subserviência entre pessoas. O conto de Alana nos confunde, nos embriaga em situações quase que patéticas para no final nos jogar num turbilhão de frustações, pois é de se crer, com Ajzental, que nunca estamos no controle, muito menos de nossa própria existência.

Henrique Fanini é mais uma voz nesta publicação que se apresenta bastante particular. O espaço é incerto, o tempo é incerto em sua narrativa. Aliás, em quase todas essas histórias da EMA espaço e tempo são incertos. A vida nesses textos se mostra — como já escreveu Wilson Bueno sobre a obra de Juan Carlos Onetti — na fímbria entre o real e o sonho. De algum modo, essas, esses emas são devedores do mestre uruguaio, ainda mais quando reafirmam a necessidade de alinhavar, com maestria, as vertigens e os desmoronamentos das existências banais. EMA é um conjunto de novos curitibanos. Forasteiros. Expatriados, exilados em seu próprio solo, universalizados, a criar uma vertente muito dissonante em relação a certas imposições temáticas locais. Mas voltando ao Henrique, para encerrar minhas banais observações, ele nos coloca em meio a uma reunião de senhoras solitárias que esperam para conhecer o novo sujeito masculino que passou a habitar a casa da anfitriã. Os diálogos ocorrem de modo bastante natural, sem surpresas, a condução do texto é quase fleumática. Mas como todo bom conto, esse de Henrique surpreende, nos deixa bastante indecisos na conclusão de seu sentido. É um texto que me fez lembrar dos finais dos contos de Horacio Quiroga. Para quem não leu Quiroga, outro mestre da narrativa latino americana, leia. E assim saberá que esses, essas emas sabem do que estão falando, sabem o quê e como estão escrevendo.

Portanto, que o anonimato lhes seja curto. Para que a nossa literatura ganhe em volume e em mais abrangência temática, em linguagem e atitudes. Nos passos da EMA chegaremos a algum lugar, mesmo que não saibamos qual. E nem é preciso saber.

Por Paulo Sandrini (local indefinido), escritor e editor.

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