Os Bárbaros Estão Chegando

Constantine Peter Cavafy foi uma das figuras mais importantes da poesia grega do século XX. Nasceu em 1863 em Alexandria, no Egito, de pais gregos. Essa confusão de nacionalidades (afinal, nasceu no Egito, seus pais, na Grécia, e seu pai ainda possuía negócios na Inglaterra) teve impacto também nos primeiros anos de sua vida: já em 1870 a morte de seu pai o levou, junto com sua mãe e seus oito irmãos, à Liverpool. Devido a problemas financeiros causados pela Longa Depressão[1], em 1877, retornaram à Alexandria. Por sua vez, em 1882, princípios da guerra Anglo-egípcia[2] fizeram com que a família se mudasse para Constantinopla (atual Istanbul). Foi apenas em 1885 que Cavafy soube, realmente, o que significava estabilidade, quando se mudou novamente para Alexandria. Morou lá durante o resto de sua vida.

Nesse momento começava a escrever seus poemas, se preparava para uma carreira, e descobria a sua orientação homossexual, que serviria de base para grande parte de sua produção poética.

Durante a sua vida, Cavafy foi um poeta recluso e publicou muito pouco de sua obra. Ao invés disso, preferia circular seus versos entre as amizades mais próximas. A falta de interesse pela publicação se deve, talvez, à natureza extremamente pessoal de grande parte do que escrevia: seu conteúdo era, muitas vezes, sexualmente explícito.

C.P. Cavafy foi também um ávido estudioso de História, particularmente de antigas civilizações. Em um grande número de poemas retratou, com um estilo muito particular, variados aspectos dos impérios romano e grego. O romancista inglês E.M. Forster, impressionado com os escritos de Cavafy, escreveu um ensaio intitulado “The Poetry of C.P. Cavafy”, onde diz “Tal escritor nunca poderá ser popular. Ele voa tanto muito devagar quanto muito alto… Ele tem a força… do recluso que, embora não tenha medo do mundo, sempre se coloca em um ângulo um pouco diferente do mesmo”.

Em termos de estilo, Cavafy era incomparável. Não se assemelhava a nada encontrado no Ocidente ou nas correntes gregas. Sua linguagem, ao contrário do relevo grego, era plana; sua entrega, antagônica aos desertos egípcios, direta. Foi um perfeccionista, obsessivamente refinando cada linha de sua poesia. Seu estilo adulto era um iâmbico livre, – não o pentâmetro iâmbico, uma popular métrica poética utilizada na poesia britânica do período elisabetano – livre no sentido de que seus versos raramente rimavam e, normalmente, quando de fato rimavam, era com uma função clara: ironia.

C.P. Cavafy morreu em decorrência de um câncer de laringe em 1933. Hoje, diversas escolas e universidades mundo afora estudam a sua obra.

 

 

À Espera dos Bárbaros

 

O que esperamos na ágora reunidos?

 

É que os bárbaros chegam hoje.

 

Por que tanta apatia no senado?

Os senadores não legislam mais?

 

É que os bárbaros chegam hoje.

Que leis hão de fazer os senadores?

Os bárbaros que chegam as farão.

 

Por que o imperador se ergueu tão cedo

e de coroa solene se assentou

em seu trono, à porta magna da cidade?

 

É que os bárbaros chegam hoje.

O nosso imperador conta saudar

o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe

um pergaminho no qual estão escritos

muitos nomes e títulos.

 

Por que hoje os dois cônsules e os pretores

usam togas de púrpura, bordadas,

e pulseiras com grandes ametistas

e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?

Por que hoje empunham bastões tão preciosos

de ouro e prata finamente cravejados?

 

É que os bárbaros chegam hoje,

tais coisas os deslumbram.

 

Por que não vêm os dignos oradores

derramar o seu verbo como sempre?

 

É que os bárbaros chegam hoje

e aborrecem arengas, eloqüências.

 

Por que subitamente esta inquietude?

(Que seriedade nas fisionomias!)

Por que tão rápido as ruas se esvaziam

e todos voltam para casa preocupados?

 

Porque é já noite, os bárbaros não vêm

e gente recém-chegada das fronteiras

diz que não há mais bárbaros.

 

Sem bárbaros o que será de nós?

Ah! eles eram uma solução.

tradução de José Paulo Paes.

Análise

Se, por um acaso infeliz, sentiu um gosto familiar no poema que acabou de ler e não está conseguindo digeri-lo, alegre-se, caro leitor, é um indicativo de boa saúde mental.

A alta sociedade (leia-se pavão do reino animal) se veste com pompas, se perfuma com a fragrância mais exótica, e se porta com a dignidade de um semideus: tudo para agradar aos bárbaros. Mas ainda assim, não consegue agir para o seu país. O fato de que existe apenas um interlocutor nesse poema serve apenas para aumentar a ironia. Trata-se, não de uma conversa, mas de um diálogo interno que reflete o senso de irrealidade que sentimos ao ver os nossos próprios políticos sambarem, por sua vez, na pouca dignidade que permitem que tenhamos.

A cada pergunta, uma resposta vazia, forçada. Não são as palavras que ele gostaria de pronunciar. A cada etapa, distancia-se do simples e se aproxima do subliminar; do óbvio para lampejos dos medos e das necessidades que deixam a vida pública enevoada – vide a encontrada no nosso país.

E no fim, a conclusão mordaz de que a solução não virá. Ansiosos, a inércia política e o desejo perverso de uma crise violenta que pudesse, quem sabe, quebrar o status quo e revigorar o Estado não é mais uma possibilidade.

Gosto de pensar que, se Cavafy fosse brasileiro e vivesse nos dias de hoje, ele teria continuado o seu poema com mais algumas estrofes.

Cavafy, assim suponho, escreveria: ‘Eles eram a solução. De fato. Que tal agora assumirmos nós mesmos o trono. Já que os bárbaros não vieram, seremos nós os bárbaros! Calma, um momento, me escute. Daremos a eles o que eles querem. Ninguém consegue notar a diferença de um bárbaro para outro, não é mesmo? Afinal, faremos algo mais além de barbáries?’

Por Lucas Morgenstern

 

[1] Informações sobre a Longa Depressão aqui.

[2] Egito esteve sob domínio inglês até 1954.

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