Origem do Mundo

Depois de um ano longe da cidade onde vivi a infância, a adolescência e boa parte da vida adulta, embarquei num voo de dez horas e uma escala rumo ao reencontro.

Não estava desejosa em vê-la, era como a iminência de ter de vestir uma roupa que não é do meu agrado só porque alguém insistiu muito e quero, mesmo que por um breve momento, atender a esse pedido e agradar essa pessoa. Não sei, ainda, a quem a minha visita pretende agradar. À minha mãe? Talvez a mim mesma, com certa indulgência diante do que ficou. Um armário por terminar de gerir, um agendamento para emissão de um passaporte ao qual devo comparecer e, claro, as pessoas, à quem não tenho comparecido como talvez devesse.

A cidade desde o desembarque começava a ser um misto de sonho com déjà-vu. Vendo a casa, o comércio local e as pessoas conhecidas, senti a náusea de perceber que a minha ausência por um ano inteiro não teve qualquer impacto na materialidade dos corpos e das rotinas.

O sorriso cúmplice da senhora do buffet foi o mesmo de há doze meses e doze meses atrás eu pensava que o cumprimento guardava implícito um “olha eu aqui de novo” correspondido por um “ah, é a cliente de todos os dias”. Mas não. Era como se eu tivesse almoçado ali ontem. Era como se eu não tivesse almoçado ali nunca. Como se eu e as outras milhares de clientes adultas fôssemos todas uma grande massa indiferenciada de mulheres para a qual um mesmo sorriso cúmplice serve.

No terceiro dia cheguei a ficar confusa, a ponto de a cidade parecer absoluta e concreta e a minha ausência um delírio. Talvez nunca tenha saído daqui.

Fiz esse pensamento pela primeira vez enquanto descansava numa cadeira de piscina. Olhava para os meus pés esticados, os mesmos pés que há uma semana viviam gelados dentro de meias. E dei para balançar as pernas e relaxar percorrendo meu umbigo com o indicador. De lá pra cá, pareço ter adquirido o tique.

Enquanto escrevia, uma pausa, que parecia feita para pensar na continuação do meu texto, se transformou numa exploração a ele, o meu umbigo. Nesse um ano ganhei peso. Para enxergar melhor o furo é preciso trabalhar com a barriga. Manipulo essa parte com a teimosia de uma criança a descobrir o genital.

Por mais pareça ridículo, é preciso confessar: tenho procurado qualquer coisa de erótico nesse que é o meu centro, nessa que é a minha cidade. Mas encontro apenas um buraco com costuras e vincos onde restos de tecido se enroscam.

Nessa madrugada ouvi um choro de criança, um choro como o da Estrela, a filha da minha vizinha em Lisboa. Acordei achando que estava lá. Quando abri os olhos no escuro, a cabeça reorganizou a planta do quarto que agora é esse e não aquele. Tão longe e tão perto.

Hoje pela manhã encontrei a vizinha no corredor. Escondida no fundo de um imenso carrinho, vinha Micaela, sua filha de três meses. A minha vizinha engravidou quando eu parti.

Amanhã bem cedo é dia de partir outra vez. Vou embora com a passagem do já melhor organizada. Sim, eu fiquei bastante tempo longe. Uma pessoa todinha fez-se.  Meninas crescem, aqui e acolá.

Em doze meses, voilà, ao menos três umbigos cortados. E três umbigos cicatrizados. O da Estrela e o da Micaela não sei a quantas andam. O meu, bem, o meu ainda coça.

 

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

Gostou? Deixe seu comentário!