Orgulho

orgulhoimagem

Nesse começo de ano, a EMA vai republicar alguns dos textos de maior sucesso do ano passado. Voltaremos a nossa programação normal em breve.


Sentavam-se lado a lado, de frente para o balcão, ambos apoiando o queixo na mão, cotovelo sobre a mesa, as mãos livres quase se tocando. O garoto parecia não perceber a presença da menina, preferindo deixar a visão vagar pelos elementos decorativos nas paredes: ora percorria uma a uma as garrafas de cachaça alinhadas na prateleira, ora examinava cartazes propagandeando futuras apresentações de conjuntos de rock locais. Fazia isso de forma a permitir total concentração nos improvisos hipnóticos do Rock lento e pesado. Não havia muitas pessoas no bar, e os poucos presentes espalhavam-se por mesas sujas pelos cantos. Se a banda se importava com a aparente falta de entusiasmo do público, não demonstrava. Aliás, pareciam eles mesmos perdidos em devaneios, as cabeças baixas concentradas no som introspectivo. Fora as luzes do balcão, apenas o azul esfumaçado do palco iluminava o ambiente. Brasas de cigarros indo e voltando lembravam vagalumes movendo-se numa noite de neblina.

A menina intercalava olhadelas com sonoros suspiros. Via-se que estava impaciente: trocava frequentemente a mão que apoiava a cabeça, os olhos escuros movendo-se em diversas direções. As sobrancelhas espessas, traço mais marcante do rosto, moviam-se cada vez que mudava de posição, como se emoldurassem os pensamentos que a inquietavam. Teve a sensatez de esperar a música acabar antes de falar.

“Por que você não olha pro palco, se tá curtindo tanto o som?”

O menino tinha um rosto sereno, com feições delicadas, quase femininas. O nariz fino e arredondado terminava em lábios também finos e que mal se abriam quando falava, numa contradição aparente com a voz grave:

“O palco ia me distrair. Ia começar a me imaginar tocando com eles, ao invés de prestar atenção no som.”

Ela sentiu algo como afeição, mas não quis demonstrar. Contraiu os lábios para não sorrir.

“Você é esquisito demais, Gustavo.”

O menino virou-se para ela e deu um breve sorriso, mas não respondeu. Depois olhou para baixo e completou o meio giro, voltando-se para o palco à direita, costas para o balcão. A garota tomou um gole de cerveja, devolvendo a garrafa à mesa com um baque.

“A gente precisa conversar.”

O garoto não fez questão de olhar para responder. Falou com resignação e um pouco de tédio, como quem responde a própria mãe que ordena arrumar a cama.

“Eu sei.”

A menina levantou.

“Na verdade, não tenho nada pra dizer. Só saquei qual é a sua.”

“Calma, Luiza. Senta aí. Vamos conversar.”

“Não, Gus, deixa pra lá. Escuta tua música aí.”

Luiza virou as costas, mas Gustavo levantou e a segurou pela cintura, fazendo-a virar.

“Vamos pra um lugar mais calmo, então.”

Andaram até uma mesa no fundo do bar e sentaram-se frente a frente. A garota logo acendeu um cigarro, dando uma longa tragada e soprando a fumaça para cima. Gustavo olhava para o palco, agora à esquerda, examinando-a furtivamente de vez em quando. Virou a garrafa de cerveja e passou a brincar com ela, colocando o dedo no bocal e fazendo-a girar.

“Por que você está brava?” Começou.

“Já te falei: não estou brava. Só saquei qual é a sua.”

O menino deu uma risadinha desdenhosa. “Qual é a minha então?”

Não respondeu. Permaneceram calados, fingindo interesse nas pessoas ao redor. De quando em quando, o olhar de um flagrava o do outro em sua direção. Nesses momentos, Luiza parecia desafiá-lo. Havia algo de constrangedor naquilo, mas também uma atração crua, mais para a rivalidade do que para o afeto. Comunicavam-se, de certo modo, e com o tempo – quem sabe por não haver mais nada de novo onde concentrar a vista -, os encontros tornaram-se comuns. Depois de duas músicas (Gustavo contou), já se olhavam descaradamente. Luiza esperou que Gustavo sorrisse antes de constatar, sem emoção: “Você ficou a semana inteira sem falar comigo.”

Apesar de perder o sorriso, o garoto não pareceu surpreso. Apoiou o cotovelo sobre a mesa e segurou a cabeça, olhando para o lado. “Fiquei meio assim depois do nosso último encontro.” Pausou, observou a reação da garota, respondeu com um meio sorriso e concluiu: “Não tava esperando nada daquilo.”

As sobrancelhas levantaram, com ironia hostil. “O que você tava esperando? Andar de mãos dadas?”

“Não sei.” Balançou a cabeça. “Foi a primeira vez que só saímos nós dois… fiquei meio intimidado.”

“Pelo que eu fiz?”

“É…” Gustavo colocou a outra mão sobre a mesa, só para depois recolocá-la sobre a coxa. Sentava-se curvado, na ponta da cadeira. “Quem sabe intimidado não seja a palavra certa. Depois eu pensei melhor, e acho que tudo bem…”

“Tudo bem o quê, Gustavo?”

Virou o corpo todo para a menina, as costas, agora retas, apoiadas na cadeira. “Veja, Luiza, você sabe o que quer e é mais direta que a maioria das meninas. Isso me assusta um pouco, e, do jeito que eu sou, muitas vezes fico sem reação. Mas depois eu pensei…” Por um instante o olhar vacilou, mas quando o retomou, havia nele qualquer coisa de definitivo, como o soldado diante dum combate inevitável.

“Eu pensei… e vi que isso não significa que eu não queira te ver. Pelo contrário, é até interessante conhecer alguém assim.” Mal terminou as palavras, a expressão murchou. Luiza franzira o cenho e acendera outro cigarro.

Até interessante?” A brasa brilhou com a tragada forte. “Você acha que é até que interessante sair comigo?”

“Não, eu quis dizer…”

Mas a garota começou a gritar. “Você é um desgraçado aproveitador que…”

Gustavo segurou os dois braços de Luiza, que se calou. “Se eu quisesse me aproveitar de você, tinha feito aquele dia. Preciso te lembrar que quem não quis fui eu?”

“E por que transar comigo ia ser se aproveitar de mim?”

“Porque…” Gustavo largou a menina e recostou-se novamente na cadeira. “Porque eu não sinto o mesmo que você.”

Luiza deu uma gargalhada. “O mesmo que eu?” Falou num tom irônico, quase cínico. “Parece que você acha que eu quero algo sério contigo.”

Gustavo moveu as sobrancelhas de um jeito que poderia expressar tanto pena quanto dúvida. Tentou beber da garrafa vazia. “Eu nem cheguei a considerar que você podia querer transar sem sentir nada por mim. Fiquei essa semana sem falar com você porque estava me sentindo culpado de dar trela para um sentimento não correspondido.”

Ela riu ainda mais alto. “Não, Gustavo, eu não tô apaixonada por você.”

Ele ficou em silêncio, olhando para o palco, mas agora já não conseguia prestar atenção na música. Revisava mentalmente cada informação, cada situação que viveram juntos; desde quando se conheceram até aquele dia. O cinismo forçado era a maior prova de que Luiza mentia, mas lhe incomodava aquela tentativa deliberada de machucar. Se até um segundo atrás sentia apenas indiferença, agora a inesperada rejeição alterava completamente a percepção de Gustavo. Luiza tornara-se inalcançável, um vassalo que declarava independência, sorrindo diante da impotência daquele que antes dominava seu espírito. O orgulho ferido confundia os pensamentos, fazendo da raiva desejo, como se reconquistá-la fosse uma forma de se vingar.

Ainda atordoado, viu aquele rosto ficar sério e se aproximar, deslizando feito cobra pela lateral da mesa, a mão agora sobre sua perna, apertando o músculo com as unhas. A garota se inclinou, roçando os lábios no pé do ouvido.

“Você estragou um negócio que era legal, Gus. Podia ter sido melhor.”

Um arrepio contraditório, mistura de repulsa e sensualidade, perpassou-lhe a espinha. Levantou em silêncio, olhar fixo na garota. Os braços apoiados na mesa, inclinou-se em sua direção, falando com voz excepcionalmente suave: “Essas sobrancelhas te fazem parecer um travesti.” Virou-se. Caminhou apressadamente até a saída, cabeça alta, os braços estranhamente imóveis próximos à cintura. Envergonhado, fazia o possível para esconder a resposta tátil despontando entre as pernas.

A menina manteve o rosto firme ao vê-lo se afastar. Acompanhou-o com o olhar até sumir pela porta. Só então deixou o filete de lágrimas escorrer.

Por H. F. L.

Gostou? Deixe seu comentário!