O Som ao Redor

O Som ao Redor é um dos filmes brasileiros mais bem-sucedidos desta década – exceto em termos de bilheteria. A obra não chegou a levar cem mil brasileiros ao cinema, mas foi a sensação dos principais festivais do país, recebeu o prêmio da crítica no festival de Rotterdam e mais algumas homenagens por todo o mundo. Para os críticos da “estética da fome” no cinema brasileiro, O Som ao Redor traz uma bem-vinda mudança de enfoque. Sob a roupagem de um thriller psicológico, com elementos de drama e humor, a obra retrata a realidade da classe média brasileira, em especial sua relação com a violência urbana.

Nesta obra, o diretor, Kleber Mendonça Filho, faz uma espécie de painel, com uma trama central cercada de pequenos contos paralelos. A história se passa em uma vizinhança gentrificada no Recife. Como acontece em quase todas as grandes cidades brasileiras, os moradores decidem contratar um serviço de segurança particular. Esse fato, normalmente banal, mudará a vida de todos.

O Som ao Redor é reflexo do vigoroso crescimento econômico pelo qual o Brasil passava na época. O papel das elites tradicionais nessa nova realidade e a especulação imobiliária são temas que o diretor voltaria a abordar em Aquarius, mas em O Som ao Redor são apenas duas dentre várias discussões. Apesar de não tratar diretamente de personagens em favelas, analfabetos ou criminosos, a obra não deixa de ter consciência social. Isso se reflete na forma como são retratados diversos tipos de relação patronal, no “coronelismo moderno” personificado em Francisco e sua família e nas atitudes dos “novos ricos”. A trilha sonora, um zunido incômodo e constante, traduz um ponto de vista negativo, mas não se pode dizer que a obra tenha uma agenda para além de um forte comprometimento com a realidade. Afinal, vá para qualquer esquina movimentada e preste atenção – o que se escuta não difere muito daquilo que o filme mostra: o som ao redor, as pessoas ao redor, a realidade que nos cerca.

Por Henrique Fanini Leite

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