O Sol

Alexander Sokurov é um dos diretores mais ambiciosos da Rússia. O Sol é o terceiro filme de sua série de quatro produções sobre o efeito do poder sobre indivíduos. Dessa vez, Sokurov foca no imperador japonês Hirohito. O filme foi melhor recebido do que seus predecessores, com críticas quase unanimemente positivas, mas menos premiações do que Fausto, o último filme da série.

Assim com em Taurus faz com Lênin, em O Sol Hirohito é retratado em um momento de impotência: os dias seguintes aos bombardeios nucleares de Hiroshima e Nagasaki. Fora a vergonhosa admissão da derrota – após quatorze anos de guerras ofensivas vitoriosas – Hirohito é forçado a abdicar de seu status divino e a acertar com o general Douglas MacArthur detalhes a respeito da ocupação do arquipélago japonês por tropas aliadas. Com uma possível condenação por crimes de guerra pairando no horizonte, Hirohito tem de pensar em como reconstruir sua nação.

O estilo visual de Sokurov é inconfundível. Em O Sol, temos matizes puxadas ao sépia nas cenas em locais fechados e um esbranquiçado nas cenas externas, como se tivéssemos a vista ofuscada pelo sol. O foco é mais profundo, com menos do “borrado” tradicional do diretor. Para nós, distantes da cultura japonesa, é muito difícil compreender a magnitude daquilo a que se submeteu o imperador japonês em 1945. Tradicionalmente considerado um deus, a maioria dos seus súditos ouviu sua voz pela primeira vez quando Hirohito renunciou ao seus status divino e anunciou a rendição japonesa. Issey Ogata faz um trabalho incrível retratando esse personagem histórico. Seus maneirismos são indispensáveis para demonstrar a complexa combinação de impotência e altivez. As cenas em que japoneses e americanos interagem são carregadas de contradições, num perfeito retrato dos estados de espírito opostos. Os japoneses ficam horrorizados pela forma como os americanos tratam o imperador, muito por chacota, mas também por ignorância das complexas convenções que regem as interações com o soberano. Mais que um estudo histórico, O Sol é um estudo de personagem. E nisso, não poderia ser melhor.

Por Henrique Fanini Leite

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