O Primeiro Mentiroso

Quem sabe você nunca tenha ouvido falar de Ricky Gervais, mas provavelmente conhece seu trabalho. Gervais é o criador da série inglesa The Office, posteriormente adaptada com grande sucesso (e pouquíssimo talento) para a televisão americana. Foi criador, diretor e ator principal de outra série aclamada, mas pouco conhecida no Brasil, Extras, além de atuar em animações como Os Simpsons, Family Guy e Bojack Horseman. Seguindo o costume, neste cáustico O Primeiro Mentiroso, Gervais acumulou as funções de roteirista, diretor e ator principal. O resultado é um filme bastante pessoal, que, como boa parte de sua obra, tende a dividir opiniões.

O filme se passa em uma realidade alternativa, em que todos falam exclusivamente a verdade. Isso não é resultado de um código de conduta ou considerações morais, mas de ingenuidade: antes de Mark Bellison, nenhum humano jamais tivera a ideia de “falar algo que não é”. A descoberta permite a Mark destacar-se na carreira de roteirista, resolver seus problemas financeiros e batalhar pela mulher que ama. Uma mentira descuidada no leito de morte da mãe, no entanto, acaba trazendo-lhe fama inesperada.

O Primeiro Mentiroso poderia facilmente ter se tornado um filme banal, não fosse uma contundente mensagem ateísta e um enredo deliciosamente amoral. Percebe-se uma tentativa de enquadrá-lo nas convenções das comédias românticas, o que enfraquece a obra. Apesar disso, o filme usa a comédia da melhor forma possível: exagerando conceitos ao absurdo e, assim, suscitando discussões. A forma como surge o tema da religião expõe a questão universal por ela abordada – nosso desejo intrínseco de crer, de buscar ordem onde talvez não exista. As consequências desse evento, por outro lado, expõem as limitações lógicas dessa crença.

Por Henrique Fanini Leite

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