O Primeiro Contato

Em algum planeta distante, é noite. A luz do luar – há uma lua no céu – entra pelo cume de uma sala redonda e de teto curvo, como num iglu. Lá dentro, uma TV de tubo de raios catódicos, com duas antenas em ângulo e bolinhas de Bombril nas pontas, está ligada. A luz pulsante ilumina de tempos em tempos o assoalho acarpetado, o sofá bege e felpudo e os rostos boquiabertos de dois extraterrestres. Seus olhos desproporcionais estão arregalados. É evidente que são crianças – ou filhotes, como preferir -, quem sabe pelas bochechinhas salientes, ou pela expressão incrédula e inocente diante da televisão. Um deles, não só pela estatura, mas também pelos contornos do rosto, notadamente masculinos, parece um pouco mais velho. Não assim tão por acaso, falam português.

– Não acredito!

– Não pode ser!

– É verdade isso? Ele traiu a Dóris!

– Não, na certa é um plano para desmascará-la. Duvido que o Miltinho realmente largue a Dóris para ficar com a Camila.

– Sim! Só pode ser isso, mas se for, não vai funcionar. Nunca que ele vai descobrir que foi ela que envenenou o Seu Pimentel.

– Claro que vai. Na Terra eles têm um negócio chamado polícia, que descobre quando alguém fez algo errado.

– Polícia? Como você sabe disso?

– Papai me contou. Falou que viram pelo satélite de observação próxima; algumas pessoas perseguem pessoas que cometem crimes. Usam uniformes coloridos e andam armados, até. Papai anda fascinado pela maneira como eles controlam toda aquela gente.

– Fico pensando, como fazem para filmar os humanos tão de perto? Não tem uma proibição contra o contato com eles?

– No caso do satélite, usam uma câmera muito potente, estabilizada com giroscópio.

– Sim, mas isso não é o que passa no teletubo.

– Ah, isso não somos nós que filmamos. Olha que estranho: os humanos filmam eles próprios e enviam pelo planeta. Nós simplesmente capturamos as transmissões.

– Mas não são bilhões de humanos?

– Sim. Papai falou que ainda não conseguimos capturar quase nada, porque eles iam perceber. Essa é a primeira transmissão completa da vida de um humano.

– Uau! Que vida eles têm! Como são traiçoeiros.

– Sim, mas pode ter certeza que a polícia vai capturar a Camila.

– Ora, claro! Eles já têm tudo filmado, é só mostrar pra essa polícia que você falou.

– Não acho que é assim que funciona… A polícia não deve poder ver esses filmes.

– Mas então por que estão transmitindo? São pessoas especiais?

– Papai falou que são pessoas quaisquer, que tem uma vida qualquer. Igual a gente filma e depois assiste no teletubo, só que eles gostam de assistir a vida de pessoas desconhecidas. Papai falou que as pessoas que tem vidas muito complicadas, emocionantes ou interessantes devem vender os seus filmes e distribuir através das ondas elétricas.

– E realmente é legal… imagino se um dia vou conhecer alguém igual a Dóris. Queria muito alguém legal como ela por aqui.

– Papai falou que tiramos a sorte grande. Ele disse que não vai contar dessa interceptação para a agência. Disse que vamos começar a filmar tudo que acontece com a gente e vender para os outros.

– O que? Não quero ter que mostrar o que acontece na minha vida! Sem contar que ia ser um saco ter que ficar com a filmadora o tempo inteiro.

– Eu também não, mas papai falou que vai espalhar câmeras pela casa e pelos transportes automáticos. Depois ele vai pegar todos os filmes e só deixar as partes interessantes.

– Nossa, que trabalho!

– Ele disse que vamos ganhar muito dinheiro. Disse que pensou em algumas coisas divertidas para filmar.

– Por exemplo?

– Vai nos apresentar uma garota. Disse que está muito interessada na gente.

– Na gente? Em nós dois?

– Parece que sim. Falou com ela no mercado, não sei muito bem como começaram a conversar. Ele disse que vamos ser que nem o Rogério e o Robson do teletubo.

– Mas então vamos ter que brigar por ela?

– Vamos brigar de mentirinha. Mesmo ela gostando da gente, a gente só vai fingir que gosta dela. Papai disse que não é errado porque ela também sabe que não é de verdade.

– Mas eu não quero fingir!

– Acho que papai vai te forçar. Nunca vi ele tão empolgado.

– Mas eu não vou fazer!

– Por que não? Não ia ser legal se nossa vida fosse como a do teletubo, mesmo que só de mentirinha?

– Espera, não é mais fácil vendermos os filmes dos humanos?

– Dos humanos?

– É. Você acha que vamos conseguir fingir uma vida como a deles? Imagina só que difícil deve ser imitar todas essas emoções. Não consigo nem fazer as garotas que eu gosto gostarem de mim, imagina uma que eu nem gosto de verdade. Os filmes deles iam vender muito mais, e desse jeito não precisamos filmar nossas vidas.

– Tá, mas tem a agência. É proibido entrar em contato com os humanos.

– Mas e se o papai contar a ideia para o diretor? Tenho certeza que ele vai querer mudar as regras depois que vir esses filmes.

– Ele não vai fazer isso de graça, vai querer vender os filmes também.

– Ora, que seja! Vai lá, fale pro papai: dinheiro não tem pátria, por que precisa ter planeta?

Por Henrique Fanini Leite

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